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Receitas de soberania alimentar

Nutróloga e pediatra Clara Brandão

Nutróloga e pediatra Clara Brandão

GAROPABA, Santa Catarina – Em 1975, a nutróloga e pediatra brasileira Clara Brandão introduziu a “multimistura” na dieta de 13 jardins de infância de Santarém, no Pará, e observou como as crianças desnutridas ganhavam peso, se alfabetizavam e se tornavam adultos ingressando na faculdade. Naquela época, preocupada pela seca que multiplicava as filas de desnutridos em Santarém, Clara decidiu pesquisar os costumes da culinária local e fundou a Sociedade de Estudos e Aproveitamento da Amazônia. Com apoio de outras entidades, montou os jardins de infância, para os quais elaborou uma dieta variada e própria, enriquecida com a multimistura.

Essa mistura de farelo de cereais e pó de sementes, vegetais e cascas de ovo, é parte do princípio de que a qualidade está ligada à variedade e não apenas à presença de carne, frango ou peixe, explicou a nutricionista ao Terramérica nesta entrevista exclusiva. “Não existem alimentos fortes ou fracos, mas complementares”, este é o lema de Clara Terko Takaki Brandão, nascida há 67 anos no Estado de São Paulo, em uma família de imigrantes japoneses. Os pratos cotidianos podem ser enriquecidos com produtos naturais abundantes em cada estação, o que fortalece a agricultura local, melhora a saúde e a economia de cada comunidade, afirma.

Clara divulga estes conceitos em localidades de todos os cantos do Brasil. Seu plano contra a desnutrição, que lhe valeu prêmios, estendeu-se a todos os Estados e a mais de 15 países. Este mês, visitou Santa Catarina para levar essas lições a escolas e restaurantes de Garopaba, uma praia turística do litoral atlântico.

TERRAMÉRICA: Como se vinculam os conceitos de soberania, segurança alimentar e saúde?

CLARA BANDÃO: Comecei a trabalhar em segurança alimentar com agentes de saúde indígenas no Mato Grosso. Quando se trata deste assunto, é interessante incluir a questão da soberania alimentar, que é o direito que cada povo tem de usar seus alimentos tradicionais em programas de políticas públicas. Ali comecei o trabalho com as estações do ano. Por exemplo, no Rio Grande do Sul há praticamente as quatro estações. Então podemos usar todos os alimentos que existem nessa região em cada temporada, resgatando a cultura local, as plantas medicinais, as preparações típicas e analisando as doenças próprias de cada clima. No inverno, a quantidade de cítricos do Brasil é imensa, e são ricos em vitaminas e minerais. E quais doenças ocorrem nessa época do ano? Sobretudo as respiratórias. Então, precisamos de grande quantidade de vitaminas e minerais, que estão disponíveis nos produtos da época. Assim fica mais fácil trabalhar a segurança alimentar: você comprova que o uso de alimentos próprios da estação e da região, além de gerar menos resíduos químicos, é mais barato, pois existem em abundância e respondem à necessidade biológica de promover a saúde nesse período do ano.

TERRAMÉRICA: Como aplicar a soberania alimentar na educação?

CB: Hoje são distribuídas 37 milhões de merendas escolares. Se houvesse uma verdadeira alimentação regionalizada e saudável, em cinco anos poderíamos ter uma população muito mais ativa. Quando se desenha uma política como esta, não se leva em conta alergias alimentares, sobretudo do leite e do glúten. E, enquanto isso, a mandioca é cotada hoje a US$ 87 a tonelada, o que significa que o produtor está pagando para que ela seja consumida. Este tubérculo é o único alimento orgânico ao qual os pobres têm acesso em qualquer parte do país, mas dificilmente entra na merenda escolar. Uma das razões é sua conservação. Se há uma escola com 600 alunos e dois turnos de merendeiras, é impossível incluir mandioca. Entre o momento da colheita e até chegar ao prato do estudante perde-se até 80% do valor nutricional. É quando entra a cadeia produtiva e a necessidade de uma política que permita ao agricultor entregar a mandioca já descascada, dentro do possível mantida em vácuo, para não perder nada. Então seria fornecido um alimento de primeira qualidade e garantido que esse pequeno produtor continuaria trabalhando.

TERRAMÉRICA: Da mandioca comemos a raiz. Quais nutrientes existem em suas folhas?

CB: Uma pesquisa da Universidade de São Paulo mostra que as folhas de mandioca têm a metade do selênio encontrado na castanha do Pará, à qual nem todo mundo tem acesso. O selênio é um forte antioxidante, reduz o envelhecimento, melhora a imunidade e mantém a fertilidade. Se pudéssemos usar todos esses produtos que são desperdiçados, imagine a contribuição de nutrientes que teríamos. Com quatro ou cinco quilos de folhas frescas obtém-se um pó que pode ser guardado por meses ou mesmo anos, dependendo da conservação.

TERRAMÉRICA: O Brasil incorporou o conceito de segurança alimentar?

CB: O único Estado que criou uma Secretaria de Alimentação e Nutrição é o Tocantins. Nos últimos 15 anos, foram criados conselhos alimentares em todos as cidades. Porém, se dedicam a encher o estômago, e o que buscamos é qualidade. Se a alimentação fosse saudável e balanceada, comeríamos, em média, 30% menos. Os micronutrientes são fundamentais na questão da violência. Você pode ter deficiência de micronutrientes no organismo e excesso de metais pesados, como chumbo, mercúrio ou alumínio. O chumbo tende a causar hipertensão, vincula-se a condutas egoístas e agressivas. Uma dieta rica em minerais, vitaminas e fibras ajuda a neutralizar a parte do efeito tóxico dos metais pesados e, portando, a reduzir a violência.

TERRAMÉRICA: A alimentação pode prevenir doenças…

CB: Agora, por exemplo, há pânico pela gripe A (H1N1). É importante evitar aglomerações de pessoas. Mas também deve ser dito: coma cinco tipos de frutas e cinco tipos de verduras, aumente a quantidade de fibras, faça atividade física, tome sol. Ponha limão na comida, porque, como as folhas cruas de cor verde-escuro, tem muita vitamina C, o que amplia a capacidade de absorção do ferro e melhora a imunidade.

TERRAMÉRICA: Como convencer um restaurante das vantagens de incluir estes alimentos em seu negócio?

CB: O restaurante deve definir qual é seu propósito, apenas ganhar dinheiro ou também ser parte de um programa para melhorar a alimentação das pessoas. Se preparar um alimento de qualidade, pode divulgar seus produtos orgânicos, incluir gráficos sobre a adequação das folhas verde-claro e verde-escuro, oferecer gergelim e farelo e mostrar que o cliente vai ingerir menos quantidade de comida. Pode informar que com duas ou três colheradas de óleo de arroz, que contém uma substância que melhora a memória, pode-se reduzir o colesterol em até 40%. Se você tem a possibilidade de saborear um alimento de qualidade e ainda assim ganhar, porque come menos, paga menos e tem menos probabilidade de engordar, todos ganham.

Por Clarinha Glock, para o Terramérica.

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