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Pesquisas da Universidade avaliam codependência de álcool e tabaco

 
Alcoolismo e tabagismo são dependências que andam de mãos dadas. A maioria dos fumantes ingere álcool e estes têm tendência a fumar mais do que os que não bebem. É muito difícil, também, encontrar um alcoolista que não fume – cerca de 70% dos dependentes são considerados fumantes pesados (fumam mais de 30 cigarros ao dia).  

As duas dependências são tão próximas por agir de modo sinérgico: o álcool é um depressor e o fumo, estimulante, portanto o efeito de um é utilizado para compensar o do outro. Os riscos para a saúde são também muito mais graves para aqueles que fumam e bebem. “Os riscos do uso de cada droga independentemente não são apenas somados – eles são somados e aumentados em 50%”, explica Danilo Baltieri, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da USP. Algumas doenças graves, como o câncer de laringe e de boca, são um perigo maior para essa população.

Segundo Mayuri Hassano, psiquiatra do Hospital Universitário (HU) da USP e coordenadora do Centro Universitário de Intervenção em Drogas e Álcool (Cuida) do HU, o uso concomitante das duas drogas aponta ainda para uma maior dificuldade de parar. “Os estudos mostram que os alcoolistas fumantes têm, na verdade, mais dificuldade para parar de fumar e, quando param, recaem com mais frequência. Alguns estudos indicam ainda uma tendência de se buscar outras drogas quando se para de fumar”, explica ela.

O resultado de pesquisa sobre tratamento da dependência alcoólica, realizada pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), da qual participou Baltieri, encontrou inesperadamente uma medicação que auxilia na redução do alcoolismo e do tabagismo ao mesmo tempo. O topiramato atua como um diminuidor da ansiedade e impulsividade, diminuindo consecutivamente o desejo de fumar e beber.

A pesquisa analisou ainda se a preferência por certo tipo de bebida alcoólica influencia na aderência a tratamentos. A maioria dos pacientes tinha preferência pela ingestão de cerveja ou cachaça. Destes, os que preferiam a bebida destilada apresentavam um quadro clínico mais grave, e para eles, o tratamento foi menos eficiente.

Esses resultados, segundo Baltieri, estão ligados a outros fatores que não só o tipo de bebida. Uma grande quantidade dos dependentes de álcool que preferiam a pinga já havia passado por algum serviço público de saúde, e apresentava um menor nível socioeconômico. A falência de múltiplos tratamentos anteriores, a não aceitação da sociedade e os problemas profissionais e familiares decorrentes do vício acabavam por agravar a doença desse indivíduo e tornar mais difícil seu tratamento.

“A sociedade encara de forma diferente o consumo de cerveja e de pinga, e isso afeta a percepção dos pacientes acerca de sua doença. Se você passa num bar numa sexta-feira à tarde e vê dez garrafas de cerveja sobre a mesa, aquilo é normal. É normal tomar um chopp depois do trabalho. Mas não é a mesma coisa ver um sujeito com um litro de cachaça na mão. Cerveja é happy hour, pinga é perdição”, explica o psiquiatra.

Mayuri Hassano relata que o estigma social da dependência química é percebido mesmo nos próprios pacientes: “Nos grupos antitabagismo, nem sempre o paciente admite num primeiro momento a dependência de álcool ou de outras drogas. É frequente ele negar ou minimizar o uso de outras drogas, normalmente por vergonha, medo de julgamento moral ou discriminação”.

Outra característica decorrente da maior aceitação social  do consumo de cerveja é que os dependentes alcoólicos com preferência pela bebida fermentada têm maior resistência a aceitar que possuem uma doença. “É bem mais difícil esses pacientes procurarem um tratamento específico. A cerveja pode ser e é um problema sério para muitas pessoas”, adverte Baltieri.

O tratamento, segundo o psiquiatra, é muito difícil, mas sem segredos. “Três fatores são fundamentais. Primeiro vem a vontade do indivíduo de parar. Muitas vezes o indivíduo não tem essa vontade, mas a desenvolve, e nós, médicos, temos que ajudá-lo a desenvolver essa vontade. O segundo, e essencial, é a família. Um tratamento no qual não se inclua o apoio dos familiares está fadado a ter um sucesso muito menor. O terceiro é ter uma equipe especializada disposta a ajudar. É preciso avaliar cada caso e oferecer apoio específico para cada um, é preciso analisar os pormenores da doença do indivíduo, da sua vida.”

“Muitas vezes a família abandona seu parente, não entende seu problema como doença, encara como falta de caráter, como um cara vagabundo. Mas é necessário entender que é uma doença mental e que a pessoa precisa ser tratada. Há doenças mentais em torno das quais precisamos diminuir os estigmas existentes, e uma delas é o alcoolismo”, elenca. “Dez por cento da população brasileira é dependente de álcool. Precisamos trabalhar primordialmente com o esclarecimento e prevenção.”

Para as pessoas que fumam e bebem, e que pretendem parar, é consenso entre os médicos que o ideal é procurar tratamento para os dois vícios, e conquistar de uma só vez uma vida mais saudável.

Por Mariana Franco, da Revista Espaço Aberto/USP.

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