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Agricultura orgânica gera relação de confiança entre produtores e consumidores

 

Feiras ecológicas geram relação de confiança

Quem vai às feiras de produtos da agricultura ecológica que ocorrem às quartas-feiras e sábados nos bairros Bom Fim e Menino Deus, em Porto Alegre, sabe que os alimentos que compra têm qualidade. O contato direto entre produtores e consumidores promove uma relação de confiança e, de certa forma, fidelidade. Os agricultores contam com esse público diferenciado e regular, que prefere a feira aos supermercados por dois motivos básicos: interagir com quem produz o seu alimento – e saber de quem cobrar, se houver problemas – e adquirir um produto livre de venenos e mais nutritivo a preços que regulam com o de produtos da agricultura chamada convencional (que usa agrotóxicos e adubos solúveis).

 
 
As práticas de quem produz

São essas feiras que sustentam o agricultor José Mariano Martins, mais conhecido como Jalo, e sua família. Vivem há 15 anos em um assentamento em Eldorado do Sul, a 20 km de Porto Alegre, junto com outras 70 famílias. Eles mantêm o que se parece com uma horta caseira, porém em grande escala. A característica que logo chama a atenção na lavoura é a grande variedade de espécies compartilhando aquele espaço. Só das que são vendidas nas feiras, são cerca de 40. Além delas, ainda há árvores frutíferas, roseiras, pés de aipim e inclusive taquareiras no entorno, para citar alguns tipos. A disposição dos alimentos na lavoura é feita em fileiras para permitir o deslocamento entre as plantas. Numa mesma fileira, há várias espécies: primeiro um pouco de alface romana, depois rabanetes, rúcula e assim por diante – de repente, no meio de tudo, um mamoeiro. Essa é a idéia da agricultura ecológica: a diversidade. É ela que inibe as pragas na plantação: “não aparecem, e se aparecerem os danos são muito pequenos” afirma o agrônomo Fabio dal Soglio. Os micro-organismos em geral, como fungos, apenas se propagam em determinadas espécies, cessando a propagação quando encontram alguma barreira, uma espécie diferente – por isso não ocorrem epidemias no sistema ecológico de plantio.

 
Na horta de Jalo também se vê temperos e plantas medicinais, como o manjericão, a hortelã e a urtiga. Tudo o que pode ser usado de alguma forma, seja como alimento, medicinal ou decoração (flores), é mantido. Apenas o inço é retirado. Há plantas como o cinamomo que, no meio da lavoura ou próximo, repelem alguns insetos. Para repelir borboletas, o agricultor Darci Sibusque, vizinho de Jalo no assentamento, utiliza uma receita em que coloca algumas pimentas em uma garrafa com cachaça ou álcool e armazena durante um ano; ao usar, mistura uma parte do líquido com 20 partes de água e borrifa na lavoura. Esses ingredientes são do próprio assentamento, já que lá se planta também a cana de açúcar. Para espantar formigas, o método de Jalo é espalhar arroz ou gergelim preto no carreiro.

 
É interessante acompanhar que, na hora da colheita, quando se retira plantas de uma espécie, mudas de outras já estão vindo por baixo. A lavoura ecológica funciona porque o seu princípio é o mesmo dos ecossistemas naturais. Assim como não se vê pragas numa floresta porque existe todo um sistema biológico com várias espécies que se auto-regula, assim também não se vê epidemias na horta ecológica. Aliás, a praga é a idéia de um fenômeno que acontece quando o sistema está desequilibrado; na natureza, não existem pragas, o que existe são “organismos com fome”, como analisa o agrônomo Luiz Jacques Saldanha. Se há uma monocultura que serve de alimento a um inseto e se esse inseto não tem predadores, então ele acaba se multiplicando e virando uma “praga” em função das circunstâncias. A monocultura é característica da agricultura convencional, e é justamente por sua característica que ocorrem doenças que necessitam dos venenos para serem removidas.

 
O que se produz na plantação de Jalo e no assentamento é vendido ou usado para alimentar os animais ou, é claro, para o sustento das famílias. Eles têm algumas vacas e bois, portanto têm o próprio leite e o próprio queijo e, periodicamente, carne (são abatidos 4 bois por ano no assentamento e cada família costuma criar um ou dois porcos). O interessante é que não se vê máquinas nas lavouras. Eles fazem tudo a mão, desde o plantio até a colheita e carregam as plantas em caixotes no braço ou em carrinhos de mão até o local onde são lavadas. O único motor ali é o do sistema de irrigação, que é muito simples: eles cavaram um espaço de terra ao lado da plantação para coletar água da chuva – um açude – e o motor bombeia essa água através de uma mangueira para os canos junto às fileiras e daí para os aspersores. No verão, é necessário ligar o sistema por meia hora todos os dias.  Além dessa técnica, os agricultores também usam o método das estufas para que algumas espécies suportem melhor o frio, como o espinafre; a estrutura é feita com taquaras obtidas ali mesmo e com lonas que eles compram para substituição de tempos em tempos. No entanto, há espécies que se adaptam mais ao calor e outras mais ao frio; a sazonalidade é respeitada, não sendo “forçada” a produtividade de verduras e legumes fora de sua estação. Jalo usa um fertilizante que ele mesmo faz para melhorar a produção e a qualidade: mistura, em um tonel com água, açúcar mascavo e pó de basalto (obtido por meio de trocas com mineradores da serra gaúcha), borrifando o preparado diluído na lavoura. Como se percebe, não existe uma dependência econômica com determinada empresa que produz adubos e pesticidas. Isso reduz o próprio custo da produção; além de que todo o sistema ecológico funciona de forma a não agredir o meio, não poluindo o ar nem corpos de água próximos. É de se perguntar: por que isso não é normal? Por que a agricultura convencional é a dos pesticidas e não a ecológica?

 
 
Barreira cultural

Um ponto que pode surgir é que a agricultura ecológica só é possível em pequenas lavouras da agricultura familiar, afinal há uma menor produtividade por área em relação à agricultura convencional e, numa grande plantação, isso teria muito peso. No entanto, como afirma o agrônomo Fábio dal Soglio, é apenas uma questão de conscientização “um grande agricultor que entenda a necessidade e procure fazer uma mudança no seu sistema de produção para chegar a processos ecológicos consegue produzir e até ganhar dinheiro”. Dal Soglio cita o caso de um produtor de arroz que mantém um sistema ecológico em 400 hectares: “e isso não é pouca coisa”, salienta. A veterinária e coordenadora da Comissão Estadual da Produção Orgânica no Rio Grande do Sul, Angela Esgosteguy, lembra que “já existem propriedades grandes que estão produzindo e exportando açúcar, frutas, cacau, café…” Além disso, o custo de produção é menor já que o produtor não depende da compra de insumos, como os agrotóxicos.

 
Diante disso, por que então o preço dos produtos ecológicos é mais caro nos supermercados? Primeiro, porque a certificação do alimento com um selo oficial tem um custo, e esse custo incide no preço ao consumidor – o que não acontece nas feiras. Segundo, porque na transição de uma lavoura convencional para uma ecológica, ocorre uma redução inicial de produtividade devido ao fato de que o solo já está degradado pelas práticas anteriores. Então, um preço mais elevado seria necessário para sustentar o agricultor nesse período inicial. No entanto, no caso do selo de certificação, o agrônomo Dal Soglio afirma que “a taxa colocada não é repassada para o agricultor orgânico, é para os supermercados”; estes é que ficam com a maior parte do lucro. O agrônomo lamenta que “a população, em vez de cobrar uma taxa adicional para o agricultor colocar um carimbo adicional dizendo que tem veneno, ela cobra para colocar uma certificação de que não tem veneno”.

 
Outra questão em relação ao preço é que, com os produtos orgânicos sendo mais caros, isso atrai agricultores que estão interessados nesse nicho de mercado justamente para poder cobrar mais caro, mas sem uma preocupação específica com a qualidade do produto e com a preservação ambiental. Com isso, há casos de pressão por parte de empresas para que seus produtos orgânicos sejam colocados no mercado, em detrimento dos produtos de pequenos agricultores ecológicos e, segundo Fábio dal Soglio, esses grupos praticam apenas agricultura orgânica, mas não ecológica, por trabalharem com monoculturas – que necessitam de uso intensivo de insumos, mesmo que não sejam químicos, e existe a dependência a uma cadeia de poucas empresas que produzem esses insumos orgânicos.

 
Angela Esgosteguy pondera que o agricultor orgânico em alguns casos acaba tendo mais custos que o convencional porque nas situações de a lavoura orgânica ser circundada por propriedades que usam agrotóxicos, é o produtor orgânico que precisa arcar com as despesas para desviar o avanço dos venenos à sua plantação; “o que é injusto”, avalia a veterinária, que entende que a lei deveria obrigar quem utiliza os agrotóxicos a não deixar que eles se propaguem a lavouras vizinhas. No entanto, isso não impediria a entrada desses produtos químicos nos ecossistemas naturais, podendo provocar alterações artificiais no equilíbrio ecológico.

 
 
Possibilidades e perspectivas

Pergunto a Ângela sobre a criação orgânica de animais, devido ao espaço necessário para essa prática; haveria possibilidade de isso se estender de forma generalizada? Ela responde que pelo menos 90% da criação de gado no Brasil é feita de forma extensiva, portanto a questão da área não é problema. Já o confinamento de aves e suínos, analisa, dá a impressão de que o espaço de criação é reduzido, mas essa criação depende de outras áreas para a sua manutenção – tanto para o plantio da ração quanto para a deposição dos dejetos dos animais. “Os modelos orgânicos precisam mais áreas, mas não necessariamente uma área especifica – tu podes criar aves debaixo de uma área que tenha pomar” explica a veterinária. A idéia do cultivo ecológico é não-reducionista, sendo possível aproveitar um mesmo local para vários cultivos.

 
 O agrônomo Luiz Jacques Saldanha lembra que já existem estudos sobre as PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais. Ele cita em particular a pesquisa do biólogo Valdely Ferreira Kinupp sobre as PANC na região metropolitana de Porto Alegre. Segundo o estudo, 311 espécies nativas têm potencial alimentício. São mais possibilidades para atender à demanda por alimentos de forma integrada ao ambiente local. Além disso, a pouca variedade em nossa alimentação convencional também implica um menor aproveitamento de nutrientes. Ângela Esgosteguy recorda de um estudo estomacal já feito em uma múmia, onde foram encontradas cerca de 50 espécies: “a alimentação de vários povos era mais rica em outros tempos, e nós perdemos isso com a globalização”.

 
O papel do consumidor também é essencial para que os alimentos ecológicos passem a ser os convencionais: “é uma função de cada um de nós, não só do agricultor; às vezes o pessoal cobra do agricultor, mas continua sem dar o apoio necessário”, pondera o agrônomo Dal Soglio, e acrescenta, “se as pessoas comem sempre arroz, batata e bife, o que os agricultores vão produzir? Arroz, batata e bife…”    
 
Por Diego Mandarino – Estudante de Jornalismo da FABICO/UFRGS . Publicado da EcoAgência de Notícias Ambientais.

2 Responses to “Agricultura orgânica gera relação de confiança entre produtores e consumidores”

  1. 1
    Horta Pronta Online:
    Olá, conheça a Horta Pronta Online, a Horta que já vem pronta,
    Lançamento no site:
    http://sites.google.com/site/hortaprontaonline/
    Grato, Eliel.
  2. 2
    roberto s santos:
    olá sou roberto e estou fazendo um trabalho de faculdade sobre ortaliças organicas e gostaria de ter algumas informações sobre, se voces poderem me ajudar eu agradeço, desde ja muito obrigado.
    roberto s santos
    roberto_602jg2@hotmail.com

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