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Foco de salmonela aponta para granjas industriais

As autoridades norte-americanas determinaram que um foco de salmonela causado por ovos infectados com a bactéria teve origem no alimento para galinhas utilizado em dois estabelecimentos rurais de Iowa. Muitas organizações culpam o sistema de granjas industriais. Até agora, cerca de 550 milhões de ovos foram retirados do mercado após registro de 1.300 casos de intoxicação com salmonela em dez Estados.

Embora a bactéria causadora da salmonela não seja a mais mortal nem a mais perigosa que existe – até agora não houve nenhuma morte ligada ao foco atual – seus sintomas incluem diarreia, febre e vômitos. E, como dizem organizações que defendem os alimentos seguros, a velocidade com que a salmonela se propagou desta vez revela que o sistema alimentar depende em demasia de uma produção concentrada.

O alimento contaminado procedia da firma Wright County Egg, propriedade de Austin “Jack” DeCoster, cujas operações muitas vezes foram criticadas por incorrerem em práticas como alojar as galinhas em condições que facilitam a transmissão de doenças. Isto significa que aproximadamente seis delas estão amontoadas em uma pequena “gaiola emparelhada”, em geral de 20×20 centímetros.

As granjas de Iowa afetadas pela salmonela não são as únicas que funcionam dessa maneira. Estima-se que 97% dos ovos produzidos em todo o país procedam de gaiolas emparelhadas, como cerca de 60% dos ovos de todo o mundo.

Nos últimos anos, foi detectada salmonela em alguns tomates, pimentões, espinafre e carne, mas a atual retirada de ovos do mercado ilustra algo muito simples que os defensores dos alimentos seguros afirmam há anos: as doenças podem se espalhar muito mais facilmente entre animais que lotam locais pequenos, como as gaiolas emparelhadas. Nestas densas concentrações de galinhas, se uma fica doente é muito mais difícil conter a enfermidade do que curar.

“Trata-se de operações concentradas onde em cada recinto estão cerca de dez mil aves. Isto cria uma estrutura na qual a contaminação ambiental pode se propagar mais facilmente”, disse Patrick Woodall, diretor de pesquisas na organização sem fins lucrativos Food & Water Watch. Segundo ele, estas operações enormes e concentradas têm uma “incidência maior de salmonela do que em lugares de menor densidade. Maior densidade, maior risco de contaminação”, resumiu.

A Humane Society of the U.S. diz que nove estudos feitos nos últimos cinco anos concluíram que é entre três e 50 vezes mais provável encontrar salmonela em estabelecimentos com galinhas em gaiola do que naqueles onde podem circular livremente. Patrick disse que os frangos podem nascer com salmonela, que por sua vez pode estar nos alimentos que comem ou no entorno onde vivem.

Neste caso, embora as autoridades sejam cuidadosas em destacar que ainda faltam análises e pesquisas, a bactéria parecer ter se originado nos alimentos. O fato de tantas galinhas estarem ocupando um espaço pequeno, entretanto, parece ter permitido que a bactéria se propagasse inclusive para aquelas que não ingeriram o alimento contaminado.

Além disso, não são apenas as galinhas que estão concentradas no mesmo lugar. O mesmo ocorre com a produção. Cinco Estados produzem metade dos ovos dos Estados Unidos, o que ajuda a explicar como um problema em um estabelecimento de um condado de Iowa deixou doentes pessoas de todo o país. Embora os ovos com salmonela tenham origem em apenas duas fazendas de Iowa, foram distribuídas por pelo menos 36 marcas diferentes em 14 Estados.

Ironicamente, a regulação que garante a segurança destes produtos está longe de ter se consolidado. Tal como apontado muitas vezes desde que foi reconhecido o foco de salmonela e retirados do mercado os ovos contaminados, no começo da semana retrasada, a Administração de Drogas e Alimentos dos Estados Unidos (FDA) está encarregada dos mesmos – assim como cerca de 80% do resto dos alimentos do país – enquanto o Departamento de Agricultura controla outros produtos derivados dos ovos e das aves.

A FDA carece de autoridade para ordenar a retirada desses produtos. Por outro lado, como já ocorreu em vários casos, depende de os produtores os retirarem voluntariamente. Novas regulamentações entraram em vigor apenas semanas antes do surgimento do foco, muito tarde para detê-lo. As mesmas exigem mais exames das galinhas, de seus alimentos e ovos. Se for encontrada salmonela, os ovos contaminados serão processados como líquido ou pó, após serem pasteurizados para matar a bactéria.

Contudo, estas novas regulamentações continuarão dependendo de uma combinação de autoanálise das empresas e do controle da FDA. Patrick não está seguro de que o resultado tenha êxito, dado que as “regulações da FDA foram frouxas no passado”. Além disso, as novas normas “nada fazem para mudar a estrutura das operações”, isto é, a lotação com que são criadas galinhas poedeiras.

As organizações que defendem a segurança dos alimentos depositam suas esperanças em um projeto de lei que está parado no Senado. A Câmara de Representantes aprovou no ano passado um projeto similar criando uma única agência federal dedicada à segurança dos alimentos, com poder de realizar pesquisas obrigatórias e fechar estabelecimentos que não cumprirem os requisitos.

A própria FDA exigiu a aprovação do projeto. Segundo Patrick, a indústria “lutou com unhas e dentes para impedir que fossem aprovadas até mesmo as regulações” que entraram em vigor bem antes da retirada dos ovos do mercado. Estas foram propostas originalmente no governo de Bill Clinton (1993-2001), embora algumas partes, como a medida que exige que os ovos sejam refrigerados para diminuir o desenvolvimento das bactérias, tenham sido propostas pela primeira vez na década de 80.

Por Matthew Berger, da IPS/Envolverde.

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