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Recurso dos covardes: pesquisador argentino que denuncia o mal causado pelo glifosato é ameaçado de linchamento

O professor e pesquisador argentino Andrés Carrasco, da Universidade de Buenos Aires, ganhou notoriedade internacional quando, em abril de 2009, divulgou resultados de suas pesquisas indicando que o glifosato, princípio ativo do herbicida (mata-mato) Roundup, da Monsanto, está associado a malformações de embriões de anfíbios.
 
Na tarde de 7 de agosto, último sábado, o Dr. Carrasco começava uma palestra em La Leonesa, na província do Chaco, quando um grupo de funcionários municipais e arrozeiros que defendem os agrotóxicos, liderados pelo chefe da administração local José Carbajal e pela deputada Elda Insaurralde, insultaram, ameaçaram e agrediram parte da comitiva que acompanhava o pesquisador. A palestra foi interrompida e houve necessidade da intervenção da polícia.
 
A comitiva era formada pelo ex-Subsecretário de Direitos Humanos do estado Marcelo Salgado e pelos deputados Carlos Martínez e Fabricio Bolatti, entre outros. Salgado foi brutalmente agredido no rosto, chegou a ficar inconsciente e teve o joelho quebrado. Martínez e Bolatti também foram espancados.
 
Carrasco se refugiou em um carro, onde ficou preso por quase duas horas sob ameaças de linchamento.
 
A imprensa local observou que o dono das fazendas arrozeiras do Departamento Bermejo, Eduardo Meichtry, de longe incitava os funcionários da administração local e os trabalhadores de seus estabelecimentos a impedir a saída do carro onde estava o pesquisador.
 
Antes deste triste episódio, Carrasco havia realizado excelentes exposições na Assembléia Legislativa do Chaco e na Faculdade de Humanidades da UNNE (Universidad Nacional del Nordeste), e encerraria sua estadia na província com uma conversa com os moradores de La Leonesa e de Las Palmas.
 
O Roundup é largamente usado em todo o mundo e sua utilização foi fortemente expandida com a difusão das lavouras transgênicas RR (Roundup Ready), que foram desenvolvidas para tolerar aplicações do produto (esse é o caso de toda a soja transgênica plantada).
 
Os testes em anfíbios realizados por Carrasco foram baseados em modelo tradicional de estudo para avaliação de efeitos fisiológicos em vertebrados, cujos resultados podem ser comparáveis ao que aconteceria com embriões humanos. Os resultados da pesquisa mostram que doses mínimas de glifosato causaram defeitos no cérebro, intestino e coração de fetos de várias espécies de anfíbios.
 
Carrasco começou a enfrentar várias formas de perseguição pouco após a divulgação de suas pesquisas. Sofreu os mais variados tipos de ataques que visavam desqualificar sua pesquisa e a ele próprio enquanto pesquisador.
 
O mais notório foi o veto à sua palestra prevista para a Feira do Livro 2010, na Argentina, organizada pelo CONICET (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas), do qual Carrasco é membro. A censura chegou inclusive a ser questionada por parlamentares argentinos, que sugeriram a existência de ligações entre o CONICET e a Monsanto.
 
Mas avanços importantes sobre o tema também se passaram na Argentina depois da divulgação dos estudos de Carrasco. Em março deste ano justiça de Santa Fé proibiu a utilização do glifosato nas proximidades de zonas urbanas. Os juízes também marcaram jurisprudência ao invocar o Princípio da Precaução e foram inovadores ao valorizar os testemunhos dos afetados pelas intoxicações e contaminações. A sentença ordenou ainda que o governo estadual realizasse estudos junto à Universidade Nacional do Litoral (UNL) para avaliar os danos dos agrotóxicos à saúde e ao meio ambiente.
 
Outro passo importante foi a publicação, em julho último, de um informe oficial do governo estadual do Chaco (estado vizinho a Santa Fé, no norte do país) confirmando a relação entre agrotóxicos e aumento de doenças na região: em uma década, triplicaram os casos de câncer em crianças e quadruplicaram os nascimentos de bebês com malformações.
 
Grande parte dos dados deste estudo está focada na localidade La Leonesa, epicentro das denúncias por abuso na aplicação de herbicidas e inseticidas na produção de arroz. O informe oficial solicita que sejam tomadas “medidas preventivas” em La Lenoesa até que se realize um estudo de impacto ambiental e pede que se ampliem as análises para as outras seis localidades que estariam sujeitas às mesmas condições. La Leonesa é justamente a localidade onde a comitiva do professor agora foi agredida.
 
De fato este movimento de reação contra os abusos do agronegócio na aplicação de agrotóxicos não está agradando a todos. E os incomodados começaram a apelar para os piores métodos de confronto.
 
Como bem sintetizou a ONG argentina RENACE, “pode-se ver como a intolerância e a defesa do indefensável acham na violência sua maneira de expressão”.Fonte: AS-PTA – Por Um Brasil Ecológico, Livre de Trangênicos e Agrotóxicos.

3 Responses to “Recurso dos covardes: pesquisador argentino que denuncia o mal causado pelo glifosato é ameaçado de linchamento”

  1. 1
    Paulo Andrade:
    Caros.
    A pesquisa do professor Carrasco indica que a formulação comercial do glifosato provoca efeitos graves no desenvolvimento de embriões de sapo e, em parte, em embriões de galinha. Mas há várias críticas severas ao seu trabalho, sendo a mais importante a extensão dos seus resultados de laboratório à realidade da lavoura. Primeiro, o glifosato não é usado em água, apenas em solo. Por isso, o modelo empregado (girinos) é muito inadequado para se tirar quaisquer conclusões. Menos ainda a injeção do produto em ovos. Segundo, o autor menciona sempre que não há trabalhos que verifiquem a segurança do glifosato, mas isso é inteiramente falso: há centenas deles, e o Prof. Carrasco não cita nenhum. E, mais grave, a maior parte dasua literatura é baseada em artigos amplamente refutados na esfera científica, como os do grupo de Seralini, na França. Por fim, o Prof. Carrasco foi fazer sua palestra aos moradores de uma região onde se planta grãos extensivamente, com o emprego de herbicidas (não apenas o glifosato, mas muitos outros, muito mais perigosos), mas não foi sozinho ou na companhia de outros cientistas: foi acompanhado de políticos (deputados e vereadores) que se opõem à tecnologia por razões bem menos claras do que a sua. Erro gravíssimo. Foi espancado, e talvez tenha merecido, não pelas suas posições científicas, mas por ter juntado política partidária e ciência, dois líquidos imiscíveis.
  2. 2
    helio:
    O fato de misturar politica com meio ambiente é de fato um erro, devemos nos afastar dessa raça que se vende por qualquer caraminguá.
    Porém isso não desmerece o estudo e, ao contrário, reforça a posição do professor, visto que daqui não vivemos a sua realidade e o seu momento deve ser respeitado. Se achou que deveria levar aquele povo à palestra era um direito seu.
    Quanto ao fato de que o glifosato é aplicado na terra (solo) não prejudica em nada o estudo, visto que os animais em teste serviram para demonstrar as alterações orgânicas quando em contato com o herbicida e isso poderia ser feito até com animais alados.
    Também devemos lembrar que, ao contrario do que diz a lenda, o glifosato utilizado nas lavouras permanece ativo em média 560 dias, sendo levado pela chuva nesse período para córregos, rios, lagoas e, por que não, para o oceano. como é lançado pelo ar, pulverizado, também é dispersado e contamina áreas muito além da lavoura onde é lançado.
    helio
  3. 3
    Ronaldo Costa:
    O Paulo Andrade, com certeza, nunca ouviu falar em lençol freático e não vou perder tempo em explicar à êle o que é. Mas com certeza êle já ouviu falar em fascismo, onde o espancamento, que êle elogia, era comum.

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