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Entrevista revela por que devemos dizer não a agrotóxicos e transgênicos

Denis Monteiro, secretário executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), concedeu recentemente uma entrevista à revista belga Politique. A ANA reúne movimentos, redes e organizações engajadas em experiências concretas de promoção da agroecologia, de fortalecimento da produção familiar e de construção de alternativas sustentáveis de desenvolvimento rural. Engenheiro agrônomo e agroecólogo, Denis apresenta dados alarmantes sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil e sobre as ameaças à saúde e à segurança alimentar que os transgênicos representam.

 
Agricultores em defesa da agrobiodiversidade e contra transgênicos
Segundo ele, os grandes meios de comunicação não divulgam esse tipo de informação por terem interesses comuns aos das grandes corporações que produzem agrotóxicos e sementes transgênicas. Entretanto, ressalta a importância das mídias independentes na disseminação de informações para uma parcela cada vez mais ampla da população.

Nessa cadeia perversa de produção, os trabalhadores rurais são os mais afetados por estarem em contato direto com agrotóxicos ou por perderem seu patrimônio genético em função dos cultivos transgênicos que contaminam mesmo aquelas lavouras em que o agricultor optou por utilizar apenas sementes crioulas.

Denis também aponta para o fato de que historicamente o Estado brasileiro sempre apoiou esse modelo de “agricultura da morte”, em prol das monoculturas, do uso dos agrotóxicos e transgênicos.

Felizmente, como aponta Monteiro, temos assistido também ao surgimento de um movimento de resistência, cuja tendência é que sensibilize e mobilize os mais diversos setores da sociedade, uma vez que ninguém pode ser a favor da contaminação de alimentos e dos cursos de água e da dependência ao mercado externo.

O movimento da Agroecologia tem sido um forte aliado, ao defender a valorização de uma agricultura familiar sustentável, diversificada, que produza em harmonia com a natureza, que não dependa de insumos externos para produzir e que receba incentivos governamentais para fornecer seus alimentos saudáveis a consumidores diretos e a creches, escolas e hospitais.

A seguir, leia a entrevista na íntegra.

A população carente urbana tem consciência dos danos causados pelo uso exagerado de agrotóxico?

Acho que, no Brasil, o povo pobre das cidades tem uma noção geral de que os agrotóxicos fazem mal à saúde, mas ainda há muito a avançar na garantia do direito à informação das pessoas. É claro que as grandes corporações da grande mídia não têm interesse em informar sobre os problemas causados pelos agrotóxicos, uma vez que isso iria contra ao projeto de avanço das monoculturas e do uso de transgênicos e agrotóxicos impulsionado pelas multinacionais, aliadas desses grandes grupos de comunicação que monopolizam a informação.

Mas penso que a mobilização da sociedade tem feito com que as informações independentes comecem a surgir, mostrando as conexões entre o uso de agrotóxicos e o surgimento de diversos tipos de câncer, por exemplo. É assustador o crescimento de casos de câncer no Brasil nos últimos anos. Isso tem relação óbvia e direta com o aumento do uso de agrotóxicos. É um drama de saúde pública e sobre o qual se fala muito pouco. O Brasil foi, pelo segundo ano consecutivo, campeão mundial de uso de agrotóxicos. Usamos mais de 700 mil toneladas de veneno por ano, mais de 3,6 litros de veneno por cada habitante. Isso vai parar nas águas, nos rios e nos estômagos de quem consome esses alimentos, não só no Brasil, como em todo o mundo. Um verdadeiro absurdo! E, infelizmente, esse modelo de agricultura da morte sempre teve o apoio do Estado brasileiro.

E acho que, nas cidades brasileiras, muitas pessoas que hoje estão nas periferias se solidarizam com o drama dos trabalhadores rurais que têm que lidar com agrotóxicos. Nesses casos, os impactos à saúde são mais graves e dramáticos: casos de depressão que levam a suicídios, a tudo quanto é tipo de câncer, má formação fetal, dores de cabeça, alergias, dores no corpo. O povo da cidade se solidariza, pois seus pais vieram do campo, há uma memória ainda viva.

Penso também que as pessoas na cidade, sejam elas ricas ou pobres, sabem que é muito melhor consumir alimentos produzidos sem agrotóxicos. Tanto é que, sempre que têm oportunidade, dão preferência e grande valor a esses alimentos, seja quando produzem lá em seu quintal uma verdura ou uma fruta; seja quando compram diretamente de um agricultor lá na periferia, ou numa feira, ou mesmo no mercado; seja quando esses produtos chegam à alimentação escolar ou por meio de programas de segurança alimentar, agora que há programas públicos de incentivo. Mas uma alimentação saudável ainda é uma realidade muito distante para a maioria das pessoas no Brasil.

A população carente urbana tem consciência dos danos causados ao meio ambiente e à saúde pelos Organismos Geneticamente Modificados (OGM)?

A população já foi mais bem informada, tanto é que o índice de rejeição aos transgênicos é grande no Brasil. Mas as multinacionais e seus enviados no aparato do Estado perceberam que isso era um risco para os seus negócios e procuram de toda forma omitir informações. Mas, novamente, penso que os meios independentes de comunicação têm cumprido um papel importante de informar o povo. A luta pela garantia da rotulagem de produtos transgênicos é fundamental, pois aí a população urbana vai poder exercer seu direito de ter uma alimentação livre de transgênicos. Tanto é assim que toda hora as multinacionais querem derrubar a lei que obriga a rotulagem no Brasil. Sobre os impactos ambientais dos transgênicos, as informações começam a chegar para um público mais amplo, mostrando que os transgênicos aumentam, e muito, o uso de agrotóxicos e que contaminam as sementes locais cuidadas há anos pelos agricultores. Mas é claro que há muito a avançar nesse campo da informação. Acho que esses assuntos deveriam estar no currículo da educação básica no Brasil e que a questão ambiental não deve ser reduzida a reciclar o lixo e a fechar bem as torneiras. Isso infelizmente ainda não é realidade.

Qual tem sido o trabalho desenvolvido para a conscientização e sensibilização da população de um modo em geral em relação à alimentação?

Sou otimista nessa questão. Minha impressão é que há um conjunto de iniciativas contra-hegemônicas nesse campo, verdadeiramente revolucionárias. É claro que esse movimento todo está na contracorrente das propagandas das multinacionais e de seus aliados na grande imprensa, mas representam uma esperança. Uma rápida pesquisa na internet leva a um universo de blogs que falam de alimentação saudável, dão receitas, alguns entram na questão dos agrotóxicos e dos transgênicos, explicam o que são e os seus impactos na saúde. No Brasil, existe um movimento muito rico que é o movimento em prol da segurança alimentar e nutricional.

Desse movimento, fazem parte muitas pessoas, nutricionistas, agricultores, consumidores, agentes de pastoral, professores, médicos, agrônomos, entre outros, que têm se organizado para colocar na agenda pública a questão da alimentação saudável. Enfrentando as multinacionais das papinhas de bebê e defendendo o aleitamento materno; criticando o fast food e propondo uma alimentação colorida, com frutas, legumes e verduras; multiplicando cursos e oficinas de culinária saudável Brasil afora; defendendo as feiras livres, que são espaços de fartura, diversidade, valorização da cultura alimentar; propondo e pressionado o Estado para que promova políticas públicas de promoção da alimentação saudável.

Esse movimento tem muitas conquistas e estabeleceu uma aliança estratégica com o movimento em prol da Agroecologia, que defende as mesmas causas, dizendo que uma alimentação de qualidade só vai ser possível se valorizarmos a agricultura familiar de cada local, se aproximarmos a produção do consumo de alimentos, através de feiras, de mercados locais, de compras públicas, se o Estado criar políticas públicas de incentivo à Agroecologia e à comercialização local de alimentos.

Será difícil lutar pela qualidade da alimentação quando ainda a quantidade é um problema?

Não, a luta é a mesma, é por uma alimentação saudável, as duas questões são inseparáveis. O mesmo modelo de desenvolvimento que gera escassez para a maioria da população gera uma alimentação de péssima qualidade também para a maioria da população. Alimentos contaminados com agrotóxicos e transgênicos, de baixo valor nutricional porque são produzidos com adubos químicos e venenos em solos sem vida. Tem muita gente com muito dinheiro no bolso que está subnutrido, embora obeso, por falta de informação adequada e pela força da propaganda das multinacionais. Garantir uma alimentação em quantidade suficiente para todos, e de boa qualidade, passa por buscar revitalizar a agricultura familiar, com base nos princípios da Agroecologia. Só assim poderemos salvar o mundo da fome, hoje e no futuro. Temos mais de um bilhão de pessoas passando fome no mundo, e a maioria está no campo ou foi expulsa do campo recentemente pelo avanço das monoculturas e dos agrotóxicos. E muitas das pessoas que têm acesso a uma quantidade suficiente de alimentos se alimentam muito mal. Se mantivermos esse modelo agrícola dependente do petróleo, que vai acabar, tanto para produzir quanto para transportar esses alimentos, se não promovermos uma agricultura familiar diversificada, que produz com os recursos de cada localidade, em harmonia com a natureza, só vamos perpetuar essa situação de fome e de má-nutrição.

Você sabe quais são as ligações concretas que existem entre o MST e as comunidades carentes urbanas para uma agricultura sustentável?

Há muitas experiências interessantes de promoção de uma agricultura sustentável, agroecológica, espalhadas no país. Muitas delas se reúnem na Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), da qual o MST faz parte. Conheci muitos assentamentos do MST e vi que as principais conquistas são a capacidade de fazer com que um território que estava entregue ao latifúndio, degradado pela monocultura e pela fome de lucro, agora produzisse alimento, fartura, tanto para as famílias agricultoras, que passam a viver e a cuidar daquele território, quanto para os consumidores urbanos. Aliás, muitas famílias que estão hoje vivendo com dignidade nos assentamentos estavam passando fome nas periferias das grandes, médias e pequenas cidades, e o MST foi decisivo para que esse povo se organizasse para lutar pelos seus direitos. Visitei assentamentos em São Paulo nos quais parte das famílias é formada por pessoas que moravam na rua e catavam lixo para sobreviver e que agora tiveram sua dignidade resgatada.

Nos assentamentos, além de produzirem para a segurança alimentar das famílias, há várias iniciativas de venda direta da produção nas comunidades urbanas próximas. O povo coloca a produção numa bicicleta, numa carroça, num carrinho de mão ou num fusca velho e vai vender de porta em porta na cidade. Isso aí não aparece nas estatísticas, mas é muito significativo, pode apostar. Em muitos municípios, em todas as regiões do país, as feiras livres, onde os agricultores vendem diretamente para os consumidores, ressurgiram com a chegada dos assentamentos. Ali são vendidos alimentos de qualidade, tem muita diversidade e, na grande maioria dos casos, são alimentos agroecológicos, produzidos sem venenos, sem adubos químicos, aproveitando os recursos locais. Essas feiras agora têm recebido mais apoio por parte dos governos, fruto da mobilização dos agricultores, o que é muito bom.

Outro campo que começa a aparecer são os grupos organizados de consumidores, que fazem compras coletivas diretamente das comunidades de agricultores. Mais recentemente, foram criados programas na área de segurança alimentar nos quais o Estado cumpre o seu papel de comprar a produção dos agricultores familiares a um preço justo e utiliza esses alimentos na alimentação escolar ou em outras ações dirigidas a pessoas em situação de insegurança alimentar. Estou me referindo especialmente a dois programas: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mais antigo, e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que começou a trabalhar com a agricultura familiar só em 2009. Os assentamentos do MST e muitas outras comunidades rurais Brasil agora têm participado ativamente desses dois programas, com resultados muito positivos.

Quais outras alianças estão sendo planejadas para o futuro?

Nesse momento, estamos construindo, no Brasil, uma grande aliança de redes e movimentos sociais que fazem a crítica ao atual modelo de desenvolvimento para o meio rural e a agricultura e acreditam na proposta de valorização da agricultura familiar e da Agroecologia como o caminho para que tenhamos um futuro para a humanidade. Participam dessa aliança o movimento em prol da Agroecologia, da Soberania e da Segurança Alimentar e Nutricional, da Justiça Ambiental, da Economia Solidária, os movimentos feministas, o pessoal da Saúde Coletiva, os cientistas engajados na construção de um outro modelo de desenvolvimento. Essa aliança tem como central em sua agenda a necessidade de aproximação entre o campo e a cidade. Vamos organizar um grande mutirão de identificação das experiências inovadoras que estão em curso no Brasil, que são muitas e que se encontram em todos os cantos desse país, que chamamos de rincões transformadores. Vamos jogar luzes nessas experiências, fazendo a denúncia de como o modelo hegemônico as oprime, mas também elaborando propostas para que elas sejam multiplicadas.

Temos clareza que o caminho é o fortalecimento dos movimentos sociais. Só com os movimentos fortalecidos seremos capazes de fazer a luta política pela garantia de direitos e disputar o Estado, pressionar os governos, disputar o território da comunicação.

Qual tem sido a colaboração do Greenpeace?

O Greenpeace teve um papel importante, junto com vários outros movimentos sociais, de denunciar as ofensivas da bancada ruralista no Congresso Nacional que tem tentando alterar o atual Código Florestal no Brasil, abrindo caminho para mais desmatamento e para as suas monoculturas.

O Greenpeace tem sido também parceiro na luta contra os transgênicos. Seus ativistas estão preocupados com a questão e têm se manifestado contra as liberações de transgênicos no Brasil, inclusive com manifestações públicas importantes de denúncia dos interesses das multinacionais por trás dos transgênicos.

Também tem sido eficiente em fazer denúncias de forte repercussão na grande mídia, sobre desmatamentos e transgênicos.

Qual tem sido a colaboração do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec)?

O Idec tem sido muito atuante em relação à questão dos agrotóxicos e dos transgênicos. Tem sido verdadeiramente um aliado nessas lutas que fazem parte da luta por uma alimentação saudável.

O Idec participa, junto a várias outras organizações, da Campanha Brasil Ecológico Livre de Transgênicos e de Agrotóxicos e tem contribuído na construção de estratégias no campo jurídico para as lutas contra a liberação dos transgênicos e pelo controle do uso de agrotóxicos, o que inclui a luta pelo banimento de vários produtos no Brasil.

Como atua fortemente na defesa do direito à informação, cumpre um papel importante de passar informações aos seus associados e ao público em geral sobre as questões de transgênicos e agrotóxicos, como também sobre alimentação saudável e consumo, dando dicas de locais para se acessar alimentos saudáveis, agroecológicos.

Fonte: AS-PTA – Agricultura Familiar e Orgânica.

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