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Controle rigoroso eleva valor da produção orgânica de Capanema, no Paraná

Rosane Rama e o sogro, Pedro, não têm chefe e não dependem de mercado para comer. São produtores da agroecologia do Paraná (Fotos: © Gerardo Lazzari. Rede Brasil Atual)

Capanema (PR) – A vantagem da vida de Pedro Rama é que ele nunca teve chefe. Pode, sem que ninguém reclame, sentar-se à sombra de uma frondosa árvore em uma tarde de outono. Aos 73 anos, mantém o bigode ralo e o forte sotaque de “R travado”, uma herança dos colonizadores de Capanema, no Paraná,  principal polo de agroecologia do Brasil. A cidade foi fundada por filhos de imigrantes alemães e italianos que decidiram deixar o Rio Grande do Sul, especialmente, e Santa Catarina. Em dia do clássico futebolístico Gre-Nal, entre Grêmio e Internacional, a cidade para, tal qual fosse gaúcha, e os torcedores do time derrotado desfilam pela cidade empurrando uma carrocinha que carrega os adeptos do rival.

“É boa a vida. A gente se criou no campo. Nunca tive patrão. Se vou para a cidade, não me acostumo”, constata Pedro, ao lado do pasto em que ficam as vacas, muitas vacas, gordas e bem alimentadas. Sem precisar lançar mão de remédios que estimulem a produção, ele e a família do filho vivem com tranquilidade.

“Não plantamos muita coisa. Então, dá para segurar. Rico a gente não fica mesmo”, afirma a nora Rosane Rama, de 32, sobre a dificuldade em cultivar orgânicos. Eles têm 53 hectares de terras, mas respeitam as regras de preservação e, por isso, a área plantada é muito menor. São de quatro a seis hectares para a soja, além de milho e feijão. Para subsistência, há de tudo, e quase nada se compra fora. “Sou bem enjoada. Não como fruta do mercado. As frutas são meio murchinhas, a banana não é tão macia.” A única preocupação de Rosane é a chegada de novos vizinhos que adoram um agrotóxico.

Defensivos agrícolas quase colocaram a perder o trabalho dos agricultores. No ano passado, boa parte da produção acusou uma concentração de venenos maior que a tolerada pela União Europeia para o mercado orgânico. “Tivemos de pegar cada lote individualmente para entender. Contratamos uma empresa da Alemanha especialista em contaminações ambientais e começamos a rastrear. Fizemos coleta de água, de solo, de folhas, para ver onde estava a contaminação. Estava no Endosulfan”, lamenta César Colussi, sócio-gerente da Gebana, a empresa que faz o elo entre produtores e mercado consumidor.

Endosulfan é um defensivo de alta toxicidade. Sua aplicação está associada a problemas dos sistemas endócrino e reprodutivo e foi banida em meia centena de países. Em 2010, uma comissão de órgãos governamentais brasileiros decidiu seguir o mesmo caminho ao definir que se trata de um produto “extremamente tóxico”, a mais grave classificação existente no país. No entanto, definiu-se que a importação seria barrada na metade de 2011. O uso, apenas em julho de 2013. Com isso, quem tinha estoques, desestocou. E o resultado foi uma aplicação enorme nas lavouras convencionais de Capanema, contaminando os vizinhos orgânicos.

A bula de Endosulfan recomenda que a aplicação não seja feita em horários de ventos fortes e a uma distância inferior a cem metros de rios, açudes e outras fontes d’água. O problema é que o produto é de fácil dispersão pelo ar. “A empresa não quebrou por milagre”, constata Colussi. Este ano, o nível de contaminação por agrotóxico baixou bastante nas lavouras agroecológicas de Capanema, mas ainda há algumas que estão acima do permitido.

Certificação

Deste modo, perdem um valioso mercado que é, no fim das contas, o que assegura a existência do polo de Capanema. Antes, a certificação da produção local era feita por amostragem. Na sede da Gebana Brasil, em uma sala é realizado um pré-rastreamento para saber se algum dos produtores usou soja geneticamente modificada ou viu sua lavoura contaminada por transgênicos do vizinho. Depois disso, a avaliação corre por conta do Instituto de Mercado Ecológico, o IMO Brasil, que certifica se o grão está dentro dos padrões e pode seguir para exportação. Tudo é lacrado e cada saco de mil quilos é numerado para poder ser rastreado até o destino final.

A Gebana trabalha ainda no desenvolvimento do conceito de comércio justo. É, de certo modo, um retorno às origens. A empresa teve início na Suíça como organização não governamental. Lá, um grupo de mulheres achou ruim o preço da banana. Estava muito mais barato que a maçã, um produto nacional. Não fazia sentido. Investigando, descobriram que a banana era produzida em terras americanas sob o preço da exploração da mão de obra. Elas começaram a quebrar o elo entre os trabalhadores e as empresas tradicionais, passando a fornecer diretamente ao mercado consumidor e garantindo um preço justo.

Esse movimento teve início entre os anos 1960 e 1970. Hoje, está muito mais articulado e é motivo para que muitos europeus comprem ou deixem de comprar determinados produtos. O selo Fair Trade, ou comércio justo, é concedido a produtores e empresas que levem em conta parâmetros sociais, como a eliminação de trabalho infantil ou degradante, e ambientais, sem desmatamento e sem a realização de queimadas. Isso assegura o pagamento de um bônus que se soma ao extra pago pela produção orgânica em relação à convencional. A condição fundamental deste bônus é que a destinação dele deve ser decidida pelos trabalhadores, sem qualquer interferência da empresa ou dos consumidores. Os produtores de banana no litoral do Paraná, por exemplo, decidiram investir esta verba no caminhão utilizado para o transporte das mercadorias.

A principal certificadora do Fair Tarde é a FLO, uma organização internacional. “O FLO Cert garante um preço mínimo. Quem quer usar o selo vai pagar ao produtor este preço. Se o preço de mercado estiver acima do preço mínimo, paga-se o preço de mercado”, conta Janine Rossman, responsável da Gebana por estes certificados. Vinda da suíça, ela e o marido trabalham em Capanema após uma breve passagem pela Bolívia, onde buscaram estimular a formação de uma conexão entre fornecedores e compradores interessados em respeitar as regras de comércio justo. Não é um trabalho simples, mas é altamente rentável e a expectativa é que se desenvolva nos próximos anos no Brasil, acompanhando o crescimento do mercado de orgânicos e a preocupação dos consumidores sobre a origem daquilo que adquirem. É um trabalho fundamental para que o polo de agroecologia se mantenha e, mais que isso, deixe de ser exceção.

Texto de  João Peres, Rede Brasil Atual

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