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O papel da mídia e a visibilidade da má nutrição no mundo

A vasta repercussão nos meios de comunicação internacionais e nacionais da Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada em Roma entre os dias 10 e 21 de novembro, demonstrou o crescente interesse que estão despertando os problemas da nutrição no mundo, em boa parte porque a própria mídia presta cada vez mais atenção aos temas relacionados com a pobreza e a marginalização.

Milhares de artigos nos principais jornais de diferentes países do mundo, numerosas notícias na televisão e a relevante dinâmica nas mídias sociais cobriram a conferência realizada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 22 anos depois da primeira.

A representatividade global foi assegurada mediante a participação de mais de cem ministros e vice-ministros responsáveis pelas áreas vinculadas à nutrição em seus respectivos países.

Com um documento político e um plano de ação de mais de 60 pontos aprovado por consenso, aplicável em níveis internacional e nacional, esse encontro concluiu uma fase e abriu outra cujos resultados poderemos ver nos próximos anos.

Ao contrário de outros encontros internacionais desse tipo, nesta ocasião os meios de comunicação não destacaram apenas as intervenções dos principais oradores ou os documentos finais, mas também, ao longo das semanas seguintes à conferência, foram publicadas informações e reflexões sobre o argumento.

De fato, o tema da nutrição se incorporou como um ponto da agenda informativa global diante da gravidade social que representa, não só nos países em desenvolvimento, mas também nos desenvolvidos.

Como disseram inúmeros especialistas, uma das grandes contradições atuais é que, enquanto ainda existem 800 milhões de pessoas que sofrem fome (200 milhões a menos do que há 20 anos), na outra ponta temos 500 milhões de adultos obesos, um número que continua aumentando e está gerando sérios riscos de saúde.

Basta pensar que 42 milhões de crianças têm sobrepeso, e que a desnutrição é a causa subjacente de 45% das mortes infantis. Segundo as estatísticas, as dietas pouco saudáveis e a falta de exercício são causadores de 10% das mortes e dos casos de incapacidade permanente. Mais de dois bilhões de pessoas, quase um terço da humanidade, sofrem carências de micronutrientes.

O problema nas crianças menores de cinco anos é particularmente penoso, já que 51 milhões sofrem emaciação, ou seja, baixo peso para sua estatura, o que gera aumento das mortes por doenças infecciosas, enquanto 161 milhões de crianças nessa idade sofrem atraso no crescimento.

Inclusive do ponto de vista econômico, a má nutrição tem um custo elevado. Segundo estudos recentes, a má nutrição (fome, carência de micronutrientes e obesidade) implica um custo anual entre US$ 2,8 trilhões e US$ 3,5 trilhões, equivalente a 4% ou 5% do produto interno bruto (PIB) mundial. O custo por pessoa é de US$ 400 a US$ 500 por ano.

Em seu discurso à comunidade internacional, o papa Francisco afirmou na conferência que, “quando falta solidariedade em um país, todo o mundo se ressente”.

Apesar de haver alimentos suficientes para todos, as questões alimentares são objeto de informação manipulada, corrupção, com argumentos de segurança nacional ou “a lastimável reclamação da crise econômica”, pontuou Francisco. “Esse é o primeiro desafio que temos de superar”, acrescentou, exortando para que os direitos da pessoa humana estejam considerados em todos os programas de assistência ao desenvolvimento.

O papa destacou a necessidade de se respeitar o ambiente e proteger o planeta. “Os seres humanos podem perdoar, mas a natureza não. Temos de cuidar da mãe natureza, para que ela não responda com a destruição”, ressaltou.

Desta maneira o papa conectou os debates sobre a nutrição com a 20ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que aconteceu em Lima, no Peru, entre 1º e 12 deste mês.

Apesar da amplitude da cobertura, não podemos deixar de observar que os meios de comunicação mais importantes não se detiveram em analisar o plano de ação da conferência, que propõe o caminho para resolver gradualmente os grandes desafios da nutrição.

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Mario Lubetkin. Foto: IPS
O plano de ação propõe potencializar os compromissos políticos, impulsionar planos nacionais de nutrição, incorporando as diferentes partes interessadas na segurança alimentar e na nutrição, aumentar o investimento responsável, promover a colaboração entre os países, seja no âmbito Norte-Sul ou no Sul-Sul, e fortalecer a governança da nutrição.

Também recomenda medidas para conseguir sistemas alimentares sustentáveis, revisar as políticas e os investimentos nacionais, promover a diversificação dos cultivos, melhorar a tecnologia, elaborar e adotar diretrizes internacionais sobre dietas saudáveis, e fomentar a redução gradual do consumo de gorduras saturadas, açúcar, sal e sódio.

O capítulo dedicado à comunicação sugere empreender campanhas e programas de comunicação social sobre mudanças no estilo de vida, promovendo a atividade física, a diversificação dietética e o consumo de alimentos ricos em micronutrientes com inclusão de alimentos tradicionais, levando em conta a índole cultural.

Embora a responsabilidade principal da aplicação do plano de ação dependa dos governos e dos parlamentos dos diferentes países, os atores não estatais como a sociedade civil e o setor privado têm um importante papel a jogar, unindo forças para que as propostas se concretizem.

Desse processo não podem estar alheios os meios de comunicação como instrumento controlador, para que os desafios lançados pela Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição se transformem, em curto e médio prazos, em uma realidade.

Por Mario Lubetkin, diretor de Comunicação Corporativa da FAO. Publicado por Envolverde/IPS.

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