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Seminário debate experiências agroecológicas de enfrentamento às mudanças climáticas em diferentes regiões semiáridas do mundo

O Seminário Internacional Construção da Resiliência Agroecológica em Regiões Semiáridas, que teve início na quarta-feira (21), na sede do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), em Campina Grande (PB), foi aberto com uma mesa composta pelo diretor do Instito Nacional do Semiárido (Insa/MCTI), Ignacio Salcedo, Glória Araújo da coordenação da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil) e por Ricardo Padilha, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Ignacio Salcedo ressaltou que a proposta do Instituto é trabalhar fortemente unido com os movimentos sociais, partindo da união entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento dos agricultores. Glória Batista, em sua fala destacou os acúmulos e conquistas da rede em seus 15 anos de existência, como a democratização do acesso à água, com um trabalho que vai além da construção de infraestruturas hídricas, que se conecta com as práticas e com o conhecimento dos agricultores, fortalecendo os processos de articulação territoriais existentes.

Já o representante da FAO lembrou que, para o órgão, 2014 foi o ano da agricultura familiar, e segundo ele, as iniciativas de fortalecimento desse modelo lançadas no ano passado, irão continuar. Ele destacou ainda que 2015 é o ano dos solos, que também tem relação direta com o tema da construção da resiliência e com o combate à desertificação e que seminários como este têm um papel muito grande na articulação de atores e redes que atuam no enfrentamento aos afeitos das mudanças climáticas e à desertificação.

Painel
A mesa de abertura antecedeu o painel ‘Construção da resiliência agroecológica e reversão da desertificação no contexto de mudanças climáticas: experiências e aprendizados em regiões semiáridas’, que contou com a participação dos convidados internacionais Clara Inés Nicholls, coordenadora geral da Rede Iberoamericana de Agroecologia para o Desenvolvimento de Sistemas Agrícolas Resilientes e Mudanças Climáticas (Redagres) e de Souleymane Cissé, representante da ONG senegalesa IED – Afrique (Inovação, Meio Ambiente e Desenvolvimento), além de Luciano Silveira, da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e da ASA.

Souleymane Cissé foi o primeiro a falar. Após a contextualização da região conhecida como Sahel, uma faixa de mais 5.000km de extensão, situada na África Subsaariana, entre o oceano Atlântico e o Mar Vermelho, passando por partes de países como Mali, Senegal, Níger, Chade, Mauritânia, Burkina Fasso, Gâmbia e Camarões. Segundo o senegalês, apesar da região ter um clima bastante vulnerável, de 80 a 90% da atividade agrícola é formada pela agricultura familiar, que é responsável por 60% da alimentação produzida.

Souleymane afirmou que as secas severas que a região enfrentou, principalmente entre os anos 60 e 90, foram responsáveis por uma degradação de 67% das terras. As mudanças climáticas também vêm afetando a estabilidade alimentar, em 2013 a desnutrição atingiu 16 milhões de pessoas e gerou prejuízos de 9 bilhões. Para o convidado africano, comparando as realidades do seu país e do Brasil, ele considera que o contexto brasileiro é muito mais favorável para a agroecologia: “as pessoas e os governos compreendem melhor o significado da agroecologia e ela está mais bem estruturada enquanto sistema do que na África”, avalia.

Uma das semelhanças que ele identificou entre as duas regiões semiáridas foi que a agroecologia vem sendo desenvolvida e encarada como um movimento pelas redes de promoção. Souleymane apresentou em sua exposição um conjunto de experiências tradicionais que têm sido resgatadas pelas famílias agricultoras que têm tido uma excelente resposta aos problemas enfrentados, incluindo a redução do exôdo rural de jovens para países europeus.

Clara Nicholls, colombiana e coordenadora da Redagres, falou sobre o impacto das mudanças climáticas em diversas partes da América Latina, com os fenômenos do El niño (seca) e La ninã (inundações e deslizamentos). De acordo com a pesquisadora, os estudos mostram que os pequenos agricultores, que menos causam, são os que mais sofrem com os efeitos destes fenômenos. Outra observação é que, em diversos casos pesquisados, como a de uma família de agricultores cubanos, os sistemas agroecológicos se mostraram muito mais eficientes do ponto de vista energético do que os sistemas convencionais, que gastam mais energia e produzem menos, principalmente por terem baixa capacidade de resistirem a períodos secos e só apresentarem boa produtividade com uma grande quantidade de água, insumos e energia.

Clara criticou as pesquisas que trazem prognósticos ambientais, por desconsiderarem o conhecimento das populações locais: “Elas sempre olham para o futuro, nunca olham lá atrás para saber como os ancestrais superaram estas mudanças e minimizaram as perdas. A agroecologia não trabalha com receitas prontas, mas com princípios e com aprendizagem mútua”, disse. A pesquisadora lembrou que é preciso também considerar nos estudos a resiliência sociológica, humana, pois a agroecologia é socialmente e politicamente produtiva, do ponto do vista da geração da autonomia e da capacidade de recomposição.

Luciano Silveira, coordenador da AS-PTA e representante da ASA Brasil, fez uma contextualização sobre a região semiárida brasileira, que tem uma extensão de mais 1 milhão de metros quadrados e 1,7 milhão de famílias agricultoras, o que representa 35% do contingente da agricultura familiar do país. Luciano lembrou que o processo histórico de ocupação da região tem sido marcado pela concentração do acesso aos recursos como a água e a terra, em um modelo centrado na agricultura para exportação e em um padrão de desenvolvimento predatório dos recursos naturais. As soluções propostas eram pensadas na lógica do ‘combate à seca’. Todo esse quadro, segundo o painelista, levou ao aprofundamento de relações de dependência e subordinação das populações locais.

Luciano explicou que a estratégia da ASA foi a da descentralização do acesso aos recursos, e nesse sentido, a água seria o primordial deles. Segundo ele, a entrada da água a partir da construção das infraestruturas hídricas, a valorização da inserção social e econômica das mulheres e a participação ativa das comunidades, trouxeram impactos múltiplos e fizeram com que as famílias envolvidas nessa dinâmica atravessassem os últimos períodos de seca com muito mais tranquilidade. Nos seus 15 anos de existência, a ASA já sistematizou 1.500 experiências e realizou mais de 1.300 intercâmbios com o envolvimento de 34 mil agricultores e agricultoras. Ele afirmou que a parceria da ASA com o Governo Federal é um caso emblemático de que as políticas públicas podem vir de baixa pra cima, em um cenário onde é preciso se repensar a construção das políticas.

As experiências trazidas pelos palestrantes foram pontos de reflexão para a parte da tarde, dedicada ao debate dos resultados preliminares da Pesquisa ASA-INSA, realizada desde 2012, em todos os estados do Semiárido brasileiro.

O Seminário Internacional Construção da Resiliência Agroecológica em Regiões Semiáridas, segue até esta sexta-feira (23) com a realização de visitas de campo, trabalhos de grupo, debates e a abertura de uma exposição fotográfica. A iniciativa é da ASA, do Insa e do Projeto Terra Forte e seus parceiros, cofinanciado pela União Europeia.

Por Áurea Olimpia Figueiredo Rêgo, AS-PTA/EcoAgência.

Mercado de Orgânicos deve crescer 35% no Brasil

O Projeto Organics Brasil, desenvolvido pelo Instituto de Promoção do Desenvolvimento (IPD) em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), confirma para 2014 um crescimento acima do registrado no ano passado. Tendo como base o faturamento de 2013, análises com órgãos de varejo e acompanhamento de grandes redes, as estimativas indicam que o mercado de produtos orgânicos deve crescer em torno de 35% neste ano – contra os 22% de 2013 – e faturar R$2 bilhões.

Segundo Ming Liu, coordenador-executivo de Projetos do IPD, o mercado de produtos saudáveis vem crescendo a cada dia, tanto no exterior como no Brasil, e os orgânicos têm grande destaque nesse nicho. “O Brasil ainda tem muito para crescer, mas o setor só ganhou espaço em nível mundial devido à mudança de comportamento dos consumidores e à regulamentação de orgânicos no Brasil, o que, consequentemente, abriu espaço para maior produção”, avalia.

O coordenador do IPD destaca, ainda, que o segmento de orgânicos registrou faturamento mundial de US$64 bilhões no ano passado. A principal parcela desse montante corresponde aos Estados Unidos, que faturaram US$35 bilhões no período, seguidos pela Alemanha (US$7 bilhões) e pelo Canadá (US$4,4 bilhões).

Matéria produzida por Cinthia Andruchak Freitas, Epagri/GMC, para a revista Agropecuária Catarinense de novembro/2014.

Fonte: Santa Catarina 24h.

O papel da mídia e a visibilidade da má nutrição no mundo

A vasta repercussão nos meios de comunicação internacionais e nacionais da Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada em Roma entre os dias 10 e 21 de novembro, demonstrou o crescente interesse que estão despertando os problemas da nutrição no mundo, em boa parte porque a própria mídia presta cada vez mais atenção aos temas relacionados com a pobreza e a marginalização.

Milhares de artigos nos principais jornais de diferentes países do mundo, numerosas notícias na televisão e a relevante dinâmica nas mídias sociais cobriram a conferência realizada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 22 anos depois da primeira.

A representatividade global foi assegurada mediante a participação de mais de cem ministros e vice-ministros responsáveis pelas áreas vinculadas à nutrição em seus respectivos países.

Com um documento político e um plano de ação de mais de 60 pontos aprovado por consenso, aplicável em níveis internacional e nacional, esse encontro concluiu uma fase e abriu outra cujos resultados poderemos ver nos próximos anos.

Ao contrário de outros encontros internacionais desse tipo, nesta ocasião os meios de comunicação não destacaram apenas as intervenções dos principais oradores ou os documentos finais, mas também, ao longo das semanas seguintes à conferência, foram publicadas informações e reflexões sobre o argumento.

De fato, o tema da nutrição se incorporou como um ponto da agenda informativa global diante da gravidade social que representa, não só nos países em desenvolvimento, mas também nos desenvolvidos.

Como disseram inúmeros especialistas, uma das grandes contradições atuais é que, enquanto ainda existem 800 milhões de pessoas que sofrem fome (200 milhões a menos do que há 20 anos), na outra ponta temos 500 milhões de adultos obesos, um número que continua aumentando e está gerando sérios riscos de saúde.

Basta pensar que 42 milhões de crianças têm sobrepeso, e que a desnutrição é a causa subjacente de 45% das mortes infantis. Segundo as estatísticas, as dietas pouco saudáveis e a falta de exercício são causadores de 10% das mortes e dos casos de incapacidade permanente. Mais de dois bilhões de pessoas, quase um terço da humanidade, sofrem carências de micronutrientes.

O problema nas crianças menores de cinco anos é particularmente penoso, já que 51 milhões sofrem emaciação, ou seja, baixo peso para sua estatura, o que gera aumento das mortes por doenças infecciosas, enquanto 161 milhões de crianças nessa idade sofrem atraso no crescimento.

Inclusive do ponto de vista econômico, a má nutrição tem um custo elevado. Segundo estudos recentes, a má nutrição (fome, carência de micronutrientes e obesidade) implica um custo anual entre US$ 2,8 trilhões e US$ 3,5 trilhões, equivalente a 4% ou 5% do produto interno bruto (PIB) mundial. O custo por pessoa é de US$ 400 a US$ 500 por ano.

Em seu discurso à comunidade internacional, o papa Francisco afirmou na conferência que, “quando falta solidariedade em um país, todo o mundo se ressente”.

Apesar de haver alimentos suficientes para todos, as questões alimentares são objeto de informação manipulada, corrupção, com argumentos de segurança nacional ou “a lastimável reclamação da crise econômica”, pontuou Francisco. “Esse é o primeiro desafio que temos de superar”, acrescentou, exortando para que os direitos da pessoa humana estejam considerados em todos os programas de assistência ao desenvolvimento.

O papa destacou a necessidade de se respeitar o ambiente e proteger o planeta. “Os seres humanos podem perdoar, mas a natureza não. Temos de cuidar da mãe natureza, para que ela não responda com a destruição”, ressaltou.

Desta maneira o papa conectou os debates sobre a nutrição com a 20ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que aconteceu em Lima, no Peru, entre 1º e 12 deste mês.

Apesar da amplitude da cobertura, não podemos deixar de observar que os meios de comunicação mais importantes não se detiveram em analisar o plano de ação da conferência, que propõe o caminho para resolver gradualmente os grandes desafios da nutrição.

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Mario Lubetkin. Foto: IPS
O plano de ação propõe potencializar os compromissos políticos, impulsionar planos nacionais de nutrição, incorporando as diferentes partes interessadas na segurança alimentar e na nutrição, aumentar o investimento responsável, promover a colaboração entre os países, seja no âmbito Norte-Sul ou no Sul-Sul, e fortalecer a governança da nutrição.

Também recomenda medidas para conseguir sistemas alimentares sustentáveis, revisar as políticas e os investimentos nacionais, promover a diversificação dos cultivos, melhorar a tecnologia, elaborar e adotar diretrizes internacionais sobre dietas saudáveis, e fomentar a redução gradual do consumo de gorduras saturadas, açúcar, sal e sódio.

O capítulo dedicado à comunicação sugere empreender campanhas e programas de comunicação social sobre mudanças no estilo de vida, promovendo a atividade física, a diversificação dietética e o consumo de alimentos ricos em micronutrientes com inclusão de alimentos tradicionais, levando em conta a índole cultural.

Embora a responsabilidade principal da aplicação do plano de ação dependa dos governos e dos parlamentos dos diferentes países, os atores não estatais como a sociedade civil e o setor privado têm um importante papel a jogar, unindo forças para que as propostas se concretizem.

Desse processo não podem estar alheios os meios de comunicação como instrumento controlador, para que os desafios lançados pela Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição se transformem, em curto e médio prazos, em uma realidade.

Por Mario Lubetkin, diretor de Comunicação Corporativa da FAO. Publicado por Envolverde/IPS.

Considerados saudáveis, alimentos orgânicos conquistam clientes

Hoje eles podem ser vistos em toda a parte. Seja nas prateleiras dos mercados ou em lojas voltadas especificamente para eles, os produtos orgânicos vêm ocupando cada vez mais espaço na mesa de baianos e brasileiros. Para se ter uma ideia, segundo um estudo inédito da multinacional inglesa Dunnhumby, empresa especializada na ciência do consumidor, o momento é promissor para alimentos saudáveis no país e os produtos orgânicos estão dentro deste contexto.

Os dados apontam que 58% dos brasileiros preferem comprar este tipo de produto quando estão disponíveis. Este número é maior do que em países como Reino Unido e Estados Unidos, aonde este índice não chega a 30%. Quem lida com a agricultura orgânica diariamente também tem a expectativa de que este mercado tenha cada vez mais avanços. “As pessoas têm passado por uma mudança de mentalidade muito importante, uma vez que o consumidor tem se preocupado mais com a saúde e com o que está indo à sua mesa. Por isso, temos observado, principalmente nas feiras livres por onde vendemos o nosso produto, que a saída tem sido muito grande”, afirmou Damião Muniz, gerente de agricultura da Associação Agrícola Cosme e Damião, que fica em Camaçari, na região metropolitana de Salvador.

Desconfiança
 Nos mercados de Salvador, no entanto, os consumidores ainda enfrentam resistência em utilizar os produtos orgânicos. “Pelo que a gente ouve falar e tem acompanhado, estes produtos nós podemos consumir sem medo. Eu até gostaria de consumi-los mais. Porém os altos preços, comparados com os produtos não orgânicos, são absurdos”, reclama a dona de casa Eloísa Lima.

Além dos preços tem gente que desconfia da real qualidade desses produtos. É o caso da aposentada Irene Canovas: “Pra ser bem sincera, não sei se é verdade se esses produtos têm uso de agrotóxicos ou não. Como nós não temos acesso ao processo de produção destes alimentos, ficamos reféns apenas do que vemos nas prateleiras”, comentou. Já a também dona de casa Antônia Santos vai na contramão, e vê com bons olhos essas novas opções ao consumidor: “Realmente é mais caro que outros produtos similares. Mas acho que, a longo prazo, a nossa saúde vai agradecer por não estarmos ingerindo uma grande quantidade de produtos químicos que são inseridos nestes alimentos”, disse.

Realmente é notório perceber a diferença entre os preços dos produtos orgânicos e aqueles em que não há química em sua composição. Em alguns mercados de Salvador, por exemplo, o preço do tomate comum está em     R$ 2,75 o quilo. Já o orgânico está em R$ 9,70. O valor do quilo do chuchu é de R$ 1,95, R$ 3,65 mais barato do que o orgânico. A mesma situação foi percebida com a cebola, cujo preço variou entre R$ 2,35 (comum) e R$ 7,28 (orgânico).

Damião explica que os preços altos, no entanto, se justificam. “Se formos analisar, os produtos orgânicos, há cinco anos, não tinham uma penetração grande no mercado, então é uma coisa relativamente nova em termos de opção ao consumidor. Além disso, o processo de produção dos produtos orgânicos é bastante diferente do modo convencional. Há também a questão da mão de obra, que tem que ser especializada. Tudo isso traz um resultado muito melhor tanto na qualidade do produto, quanto no sabor, o que é melhor para o consumidor”. Ele ressaltou ainda que a Associação produz os próprios fertilizantes e inseticidas que, segundo ele, são naturais e não prejudicam o meio ambiente.

Técnica de plantio e cultivo 
Para qualificar ainda mais as pessoas que lidam com este tipo de produto, o gerente da Associação informou que parcerias com as Secretarias Municipais e com a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) são feitas de forma constante a fim de auxiliar os produtores e instruí-los sobre a melhor maneira de realizar o plantio e o cultivo do produto, que é vendido, além de Camaçari, em outras cidades como Conde, Araçás, Esplanada e Entre Rios.

Nos cursos do órgão estadual, por exemplo, os alunos aprendem técnicas para a produção agroecológica tais como o emprego de compostagem – processo biológico em que os microorganismos transformam matéria orgânica em um composto que pode ser usado como adubo –, adubação verde, manejo orgânico do solo e diversidade de culturas.

Por outro lado, Muniz elenca alguns percalços pelo qual passa a Associação, que existe há mais de 20 anos na região. “Infelizmente nós não temos uma política definida para essa área. Temos uma dificuldade imensa para conseguir o Selo Orgânico, o que nos permitiria colocar os nossos produtos em grandes mercados consumidores. Por causa disso, nós estamos apenas liberados para vender nas feiras livres, por exemplo”, citou.

O Selo Orgânico existe desde 2011 e tem por objetivo facilitar ao consumidor identificar os produtos orgânicos e comprovar sua qualidade. Para conseguir o selo, é preciso que alguns pontos, que vão desde o controle dos impactos ambientais até o pagamento anual da certificação que varia entre R$ 2.500 e R$ 15.000, têm que ser respeitados.

Fonte: Tribuna da Bahia.

Assistência técnica é aliada da produção agroecológica e orgânica

Até 2015, cerca de 120 mil agricultores familiares e assentados da reforma agrária receberão, em suas propriedades, profissionais que prestam Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), com foco na produção agroecológica e orgânica. A iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, prevista no Plano Safra da Agricultura Familiar 2014/2015, tem como objetivo agregar inovação tecnológica e estimular a adoção de boas práticas no campo à produtividade e a renda da família.

De acordo com o engenheiro agrônomo e extensionista da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), no Rio Grande do Sul, André Müller, a ação envia técnicos para as propriedades rurais com o objetivo de orientá-los sobre planejamento e modernização de processos direcionados à agroecologia e à transição para este sistema. “O primeiro passo é apresentar, para o produtor, os benefícios da produção agroecológica. Depois, analisar se a cultura tem boa adaptação ao tipo de solo, verificar se a divisa com os vizinhos é segura e avaliar se a comunidade e a propriedade contam com recursos que podem ser mais bem aproveitados.”

Com o diagnóstico em mãos, os técnicos fazem visitas frequentes às propriedades familiares, com o objetivo de capacitar os agricultores. “Nossa função é ajudar os trabalhadores rurais a começar ou a diversificar o tipo de produção de forma segura. Durante todo o processo, existe uma troca de experiência e conhecimento entre o agricultor e o profissional. Isso é importante para que não exista uma dependência e para que o beneficiário possa ser multiplicador das instruções recebidas”, observa André.

A agricultora familiar Marcia Inês Ferrari, 46 anos, atribui os êxitos alcançados em 11 anos de produção agroecológica à Assistência Técnica e Extensão Rural. Foi com o auxílio de profissionais extensionistas que ela transformou a pequena horta da família em fonte de renda e de saúde. “Sem a ajuda dos técnicos, eu não saberia nem por onde começar. Além de avaliar o solo e nos orientar sobre o modo correto de cultivar os produtos, eles nos ajudaram a articular formas de comercializá-los – seja em mercados, feiras ou por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).”

Crédito aliado à capacitação
O coordenador de Crédito da Agricultura Familiar no MDA, Mauri Andrade, salienta, entretanto, que existem duas formas do agricultor familiar ser atendido pela Ater. “O produtor pode ser incluído em chamadas públicas, realizadas pelo Governo Federal. Nessa modalidade, os beneficiários recebem orientações sobre agricultura familiar agroecológica, orgânica e agroextrativista local, do cultivo até a comercialização, sem necessariamente contratar crédito”, explica.

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) também conta com linhas de crédito para produção agroecológica em que o acompanhamento de profissionais extensionistas é obrigatória como no Pronaf Agroecologia e Produtivo Orientado.

A primeira linha, de investimento, possibilita crédito para sistemas de produção de base agroecológica e orgânica, com taxa de juros diferenciada de 1%, limite de R$150 mil, além de Ater obrigatória.

Já no Pronaf Produtivo Orientado a assistência técnica é obrigatória e remunerada nos três primeiros anos do projeto de investimento. A linha financia o pagamento dos serviços de Ater mediante a apresentação ​ de projeto técnico e dos laudos de acompanhamento das unidades familiares. “Nesse caso, o agente de crédito vai indicar, ao agricultor familiar, as empresas capacitadas para prestar o serviço e incluir o valor da remuneração do extensionista no crédito concedido. Os agricultores, nesse caso, terão um bônus de adimplência, de R$3,3 mil, que pode ser elevado para R$ 4,5 mil quando o crédito for destinado a financiamentos de empreendimentos nos municípios da região Norte”, finaliza Mauri.

Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Açúcar refinado vicia e pode causar até câncer

O consumo de açúcar vem crescendo a cada ano, é considerado uma droga estimulante, lícita, e pouco se discute sobre seus prejuízos à saúde humana. Para se ter uma ideia, de acordo com a Embrapa, em 50 anos, os brasileiros adicionaram 68 gramas do produto por dia em suas refeições. Isso equivale a cinco colheres de sopa. De acordo com o órgão de pesquisa agropecuária, nós consumimos cerca de 150 gramas de açúcar diariamente – a média mundial é de 57 gramas.

Seu consumo exacerbado vem trazendo consequências perigosas para a população, chegando a ser considerado um problema de saúde publica, atualmente, por gerar uma série de desequilíbrios sistêmicos.

A dependência química do açúcar gera sensação de prazer, estimulando neurotransmissores cerebrais. Essa reação boa leva ao vício, pois dura pouco tempo e nos faz querer sempre mais dessa substância. Como explica a nutricionista Andrezza Botelho, o produto refinado não traz beneficio algum para o organismo, por não conter nenhum nutriente, apenas calorias vazias. A energia em excesso é armazenada na forma de gordura, por meio do hormônio insulina, que, ao ser estimulado ou secretado constantemente, pode levar ao diabetes.

“O açúcar é apenas um alimento calórico, de baixa qualidade nutricional, que não oferece benefícios para o organismo. Ele rouba nutrientes, podendo alterar o meio digestivo no estômago, prejudicar a absorção de vitaminas e minerais, interferir na digestão e na absorção intestinal, além de facilitar o aumento da excreção de alguns nutrientes dentro do organismo”, explica a especialista.

Pouca gente sabe, mas o açúcar traz prejuízos ao intestino, pois é o alimento preferido de bactérias patogênicas, fazendo com que as colônia cresçam rapidamente, e, ao mesmo tempo, diminui o número dos organismos que ajudam a flora intestinal. Outros malefícios são o aparecimento de diabetes, o aumento de cáries, infecções e osteoporose, relacionada à perda lenta e constante de cálcio e magnésio, lesão nas paredes dos vasos sanguíneos, obesidade, envelhecimento precoce (aumento de radicais livres), hiperatividade, ansiedade e dificuldade de concentração e irritabilidade.

“É fundamental o uso controlado e limitado desse alimento, para garantir a qualidade e o equilíbrio do corpo. Por meio de trocas inteligentes, como o uso de açúcar mascavo e o demerara, podemos ingerir alguns nutrientes interessantes. Mesmo assim, o consumo tem de ser consciente e equilibrado, para garantir a saúde física e mental”, diz a nutricionista Andrezza Botelho.

Um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, feito com ratos de laboratório, mostrou que uma dieta com elevada dose de açúcar deixa o cérebro mais lento, prejudicando a memória e o aprendizado. De acordo com o estudo, o consumo excessivo pode interferir na capacidade da insulina de regular como a célula usa e armazena esse ingrediente, o que é necessário para o processamento de pensamentos e emoções.

Fonte: Portal UAI.

PNAE brasileiro foi apresentado no Congresso da Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica, na Turquia

A médica veterinária gaúcha, do Instituto do Bem Estar, Angela Escosteguy, foi uma das representantes brasileiras no 18º Congresso da Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM), que encerrou no último dia 15, na Turquia. O evento teve mais de 800 participantes, representando cerca de 150 países. Ao falar sobre o congresso para EcoAgência, Angela Escosteguy enfatizou que esta foi a primeira vez a IAHA – IFOAM Animal Husbandry Alliance, grupo que integra, participou do congresso, organizando dois eventos no tema de pecuária orgânica.

“Representei no Congresso Mundıal da IFOAM, o Programa Nacıonal de Alımentação Escolar (PNAE). No Brasıl poucos sabem, mas dıarıamente 47 mılhões de crıanças em escolas públicas recebem ao menos uma refeıção por dıa. O PNAE, desde 2009, instituiu que as compras governamentaıs de alımento para escolas públicas sejam pelo menos 30% provenıentes de produtores famılıares, prıorızando os alımentos orgânicos”, explicou ela.

Dessa forma, segundo Angela, foram resolvıdos doıs graves problemas: por um lado os pequenos produtores, historicamente com dıfıculdades de vender seus produtos e, do outro, mılhares de crıanças precısando de alımento.

“Isto significou na pratica”, enfatizou, “que 30% dos 1,5 bilhões de dólares anuais (segundo dados de 2013) destinados às compras para o abastecımento de escolas, foram destinados aos pequenos produtores de orgânicos que, historicamente, sempre tıveram dıfıculdades de vender seus produtos e partıcıpar de lıcıtações. E ainda unıversalızou o consumo de alımentos orgânicos, normalmente acessíveis somente à elite da população”.

A Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM) é a maior e mais importante entidade mundial do movimento de agricultura orgânica e sustentável. A cada três anos, realiza um congresso mundial para discutir os rumos da segurança alimentar, das certificações e processos relacionados à agricultura familiar, como enfrentar as mudanças climáticas e intensificação ecológica. O próximo congresso será realizado em 2017 na Índia.

Por Juarez Tosi para EcoAgência de Notícias e Vida Sustentável.

Outubro Rosa – Boa alimentação ajuda na prevenção do Câncer de Mama

O mês de Outubro traz para as mulheres reflexões sobre o câncer de mama e a necessidade de uma boa alimentação para prevenir da doença. Em tese, sabemos que é indispensável que tenhamos uma dieta balanceada com muitas frutas, verduras, legumes e grãos para manter uma alimentação balanceada.

As dicas que as nutricionistas dão é manter o peso em níveis adequados, pois as células de gordura podem aumentar a produção de estrogênio, hormônio que pode estimular o crescimento de células cancerígenas. E a única forma de manter a boa forma é o consumo de alimentos saudáveis e de uma dieta rica em nutriente. Fazer o uso de alimentos ricos em antioxidantes para evitar danos causados por radicais livres, o que também pode induzir o desenvolvimento de células cancerígenas.

Entre os alimentos que podem ajudar no bom funcionamento do fígado e na eliminação de toxinas que favorecem o crescimento de tumores estão brócolis e couve. Consumir diariamente frutas e legumes variados também auxilia na prevenção do câncer de mama e outras doenças.

Confira as dicas do que não pode faltar na sua alimentação
Vitamina C: encontrada nas frutas cítricas, em especial, na acerola, caju, kiwi, morango, laranja, goiaba, no tomate, pimentão e repolho.
 Vitamina E: encontrada no gérmen de trigo, vegetais de folhas verdes escuras, gema de ovo e castanhas.
 Licopeno: pigmento encontrado no tomate, goiaba, pitanga, melancia e uva.
 Betacaroteno: pigmento encontrado em vegetais e frutas alaranjadas – cenoura, mamão, manga e abóbora.
 Fibras – As fibras estão presentes nos seguintes alimentos: grãos e cereais integrais, leguminosas, castanhas e sementes, hortaliças e frutas.

Brócolis -  Recomenda-se o consumo de meia xícara de chá do alimento por dia.

Soja e derivados como leite de soja e tofu, contêm nutrientes em sua composição chamados fitoestrogênio. Ele é similar ao hormônio estrogênio natural, produzido pelo corpo feminino a partir da adolescência e, por isso, ocorre uma competição entre ambos dentro do nosso organismo. rutas Frutas Vermelhas

Frutas vermelhas como framboesa e amora, contêm fitonutrientes anticancerígenos chamados antocianinas que retardam o crescimento de células pré-malígnas e evitam a formação de novos vasos sanguíneos, que podem alimentar um tumor.

Cenoura é rica em beta caroteno, que protege o DNA contra a oxidação, evitando a formação de radicais livres.

Verduras – Escolha duas ou três verduras, como alface lisa, alface roxa, rúcula e brócolis. As folhas escuras são ricas em ferro e ácido fólico. As verduras também contêm fibras, que auxiliam o trânsito intestinal.

Fonte: Mais Bahia.

Mulheres agricultoras transformam suas vidas no Semiárido brasileiro

“Queria ser poetisa pra tudo poder escrever
Em rima, versos, cordéis, que todos pudessem ler
E dar boas gargalhadas na alegria de viver
Hoje eu quero escrever, sobre um bicho em extinção
Era muito autoritário, de leste, oeste e Sertão
Com desculpa esfarrapada desde o tempo de Adão
Uma cultura que houve sem Deus e a criação
Quando a desobediência fez cair em tentação
Os dois comeram os frutos, mas o que disse Adão?
Foi a mulher quem me deu, ela quem primeiro viu!
Jogou toda a culpa em Eva, foi um verdadeiro breu.
Eva não se defendeu e toda a culpa assumiu”.
Luzia Bezerra da Silva, Itatiuba, Paraíba.

É também através dos versos, como este acima, que dona Lita, como é conhecida a agricultora Luzia Bezerra Silva, da comunidade Serra Velha, em Itatiuba, na Paraíba, reflete sobre a situação de opressão que muitas mulheres ainda sofrem e a importância de que elas não se deixem ser tomadas por essa situação. Reflexão também feita pela agricultora Maria Madalena Oliveira Leite, de Montes Claros, em Minas Gerais, conhecida como dona Nenzinha. “A gente às vezes trabalha mais que os homens porque sabemos que o que a gente faz hoje não é só ajuda, a gente trabalha em tudo. Tem gente que diz que mulher é fraca, mas não tem isso de fraqueza não, mulher é forte e inteligente”, diz.

Mulheres como dona Lita e dona Nezinha conhecem seus direitos e passam a se reconhecer como agricultoras experimentadoras e protagonistas da construção da convivência com o Semiárido. Mas nem sempre foi assim e os desafios ainda são muitos para serem superados. No entanto, esse cenário vem mudando, e isso se dá pela iniciativa e luta das próprias mulheres do Semiárido. “As agricultoras experimentadoras são referências que já tiveram vidas negadas, mas que foram quebrando a negação e descobrindo o mundo a partir do conhecimento delas que são hoje experimentadoras, são guerreiras do Semiárido e suas histórias são importantes para outras mulheres”, explica Cristina Nascimento, coordenadora da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo estado do Ceará.

A luta diária das mulheres na construção e desenvolvimento de suas regiões não é nova, nem de agora. As mulheres sempre tiveram um papel importante na construção da sociedade. No Semiárido, por exemplo, elas sempre foram as principais responsáveis pela garantia da água e alimentação da família. Era das mulheres o trabalho de buscar água nos barreiros e açudes, muitas vezes acompanhada das crianças, enquanto os homens trabalhavam no roçado. Essa realidade do Semiárido tem se transformado, principalmente pela organização das agricultoras e agricultores da região e de organizações da sociedade civil que tem convivido com o Semiárido ao invés de combater à seca. Esse processo tem colocado em prática, por exemplo, a ação da ASA, de descentralização e estocagem da água na região, a partir de tecnologias sociais, como as cisternas de placas, e da valorização do conhecimento das agricultoras e agricultores. “É importante pensar a perspectiva da mulher e de sua importância para a o Semiárido, mas também de extrapolar a relação da importância a partir apenas das tecnologias, de pensar na relação das pessoas com o seu lugar. As mulheres no seu processo produtivo muitas vezes não são reconhecidas. Tem jornadas triplas de trabalho, pois acordam mais cedo, cuidam do quintal, da casa, do roçado, dos animais e às vezes elas mesmas não enxergam tudo isso como trabalho”, pontua Cristina.

Com essa nova realidade, as mulheres continuam exercendo um importante papel no desenvolvimento da região. Experimentam formas e práticas de convivência com o Semiárido a partir de sua produção, do beneficiamento dos alimentos, da comercialização, e percebem a importância de sua organização. “Elas vão percebendo seus conhecimentos e experiências que passam de geração em geração. Quando chegam as inovações de tecnologias, como a primeira água para consumo e a segunda água para produção de alimentos, isso se conecta com as experiências e conhecimentos das mulheres e causa mudanças incríveis para a vida delas”, diz Glória Araújo, coordenadora da ASA pelo estado da Paraíba.
O quintal das casas é um dos lugares em que as mulheres estão mais presentes, é neles que as mulheres experimentam suas práticas e inovações. Plantas medicinais, hortaliças, pequenos animais, flores, entre outras produções compõem os quintais. Mas elas não trabalham apenas nesse arredor de casa enquanto se faz o almoço. Elas trabalham e se dedicam ao quintal também porque buscam os alimentos saudáveis para toda a família, porque tem esse cuidado com a alimentação. “Eu fico feliz em saber que toda a minha família tem uma alimentação saudável, mas não só a gente, mas minha comunidade, minhas vizinhas, minhas amigas da cidade que compram minhas hortaliças”, conta dona Lita.

Mas para conquistar essa felicidade em partilhar sua produção, dona Lita teve que lutar contra muitas adversidades. E foi experimentando, através de um sistema de irrigação por gravidade, que ela mesma produziu, e com a água armazenada na cisterna-enxurrada, que passou a produzir suas hortaliças e a partilhar com as vizinhas, até enxergar o potencial de comercialização que tinha. Mas teve que driblar o preconceito do marido, que não queria ver a mulher na feira, que para ele era lugar que só tinha homem. “Ele é cortador de carne e tem um box na feira. Um dia peguei meus sacos cheios de hortaliças, pedi pra minha menina fazer um cartaz com o nome produtos orgânicos e cheguei lá. Ele disse que eu num ia fazer isso, mas eu devagarzinho comecei a vender. Hoje ele também vende as hortaliças na feira”, conta dona Lita, exemplificando que o preconceito com o trabalho da mulher ainda é muito forte.

A experimentação vem da prática, mas não só da agricultura. As agricultoras não só inovam buscando formas de conviver com o Semiárido através da produção, mas também experimentam do ponto de vista da organização. “Todas as conquistas que tivemos no campo das políticas e direitos foram a partir da luta das mulheres. É importante refletir com elas da importância do espaço coletivo. Elas se encontram, elas veem que o problema de uma é de outra. Se junta em torno de uma causa que não é minha é da outra. O espaço coletivo é fundamental para a reafirmação dos direitos a exigência de efetivação de direitos”, relata Cristina.

Para a agricultora Luciana da Silva, do Rio Grande do Norte, a organização contribui e fortalece os processos produtivos. “Eu casei com 14 anos e a vida só começou a melhorar quando eu entrei e me organizei na associação. Porque aprendi com as outras mulheres como é importante nós estarmos em todos os espaços produtivos da propriedade criando e experimentando: na horta, no roçado e na criação. Depois que comecei a dominar a produção a vida melhorou muito passamos a cultivar para comer e comercializar”, Luciana da Silva, agricultora do Rio Grande do Norte.

A troca de conhecimentos entre as agricultoras é muitas vezes o estímulo às experimentações e ao processo organizativo. Os momentos de intercâmbios de experiências, por exemplo, metodologia usada pela ASA, contribui para o fortalecimento desse conhecimento. “A gente vai fazendo os intercâmbios, vai trocando as experiências e vai colocando em prática, vai experimentando. É por isso que a gente é agricultora experimentadora”, conclui dona Nenzinha.

Para Glória, os intercâmbios são momentos de diálogo de agricultora pra agricultora em que se enxerga a força do que está fazendo. “Essa troca busca também o aperfeiçoamento daquilo que elas estão inovando, seja no manejo da água, na criação de animais, em como lidar com os períodos de estiagem. Trocam conhecimento da valorização do patrimônio genético do Semiárido brasileiro, como com as sementes. Muitas são guardiãs e não se percebem, elas vão se sentindo fortalecidas a partir do diálogo de agricultora pra agricultora”, explica Glória.

Encontro Nacional – Mais de 100 mulheres agricultoras de todos os estados do Semiárido estiveram reunidas nos dias 23 e 24, em Lagoa Seca, na Paraíba, durante o I Encontro Nacional de Agricultoras Experimentadoras, com o lema Celebrando conquistas na trajetória da ASA. O objetivo do encontro era de valorizar e dar visibilidade ao conhecimento e as capacidades das mulheres agricultoras e suas formas de inserção na organização do trabalho da agricultura familiar, além de construir coletivamente caminhos para superação das situações de desigualdade. As agricultoras voltam para suas comunidades após o encontro mais fortalecidas e com novos conhecimentos, a partir da troca de experiências que vivenciaram.

Fonte: AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.

Uso da agrobiodiversidade pode ajudar a enfrentar as mudanças climáticas

Os governos da América Latina e do Caribe devem aprofundar as políticas públicas para que a agricultura familiar e os povos tradicionais possam se beneficiar da agrobiodiversidade regional e fazer frente aos desafios da mudança climática, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Participantes do V Seminário Regional Agricultura e Mudança Climática, organizado pela CEPAL e pela FAO, com apoio da Cooperação Francesa e com patrocínio do IICA e Oxfam Grã-Bretanha, assinalaram que é necessário reconhecer os potenciais dos conhecimentos tradicionais acumulados pelos agricultores familiares e os povos originais para adaptar a agricultura regional à mudança climática.

“Fortalecer a agricultura familiar, permitindo aproveitar de forma cabal a riqueza dos recursos da nossa região e aproveitar as expressões de conservação da agrobiodiversidade vinda dos povos tradicionais, vai possibilitar, não somente, fortalecer a esses setores, mas também é uma forma de potenciar a segurança alimentar de toda região”, ressaltou o representante regional da FAO, Raúl Benítez.

Guardiãos da biodiversidade – A agrobiodiversidade é um recurso indispensável para garantir que as gerações atuais e futuras contem com uma base produtiva que sustente a segurança alimentar.

“Faz falta aproveitar o capital da biodiversidade que temos para encontrar espécies mais resistentes a mudança climática. Toda essa riqueza que temos na região podemos analisar e aproveitar”, assinalou durante  o Seminário, Graciela Magrín, integrante do Painel Intergovernamental de Mudança Climática.

A FAO apontou ainda que os países devem fazer esforços para conservar e aproveitar os recursos de maneira racional, melhorando e democratizando o acesso e eles, especialmente para os agricultores familiares, que são os que produzem a maior parte dos alimentos do consumo local nos países da região e para os povos tradicionais que vem desenvolvendo práticas agrícolas e de conservação durante milhares de anos.

“Precisamos desenvolver sistemas agrícolas mais diversificados e resilientes, desenvolver alternativas produtivas em condições climáticas variáveis”, enfatizou Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), que ressaltou a importância de refletir sobre “o papel da agricultura familiar não somente como produtora de alimentos, mas também como protetora da agrobiodiversidade”.

Alicia Bárcena lembrou que a região tem sido o centro de origem de diversas espécies agrícolas, como o milho e a batata, destacando “o tremendo papel que tem exercido os povos tradicionais e os agricultores familiares selecionando e usando essas variedades de geração em geração. Essa acumulação de conhecimento não foi suficientemente reconhecida”, acrescentou.

Insegurança alimentar – O representante regional da FAO chamou a atenção sobre o fato de que tanto os agricultores familiares, como os povos indígenas muitas vezes vivem na pobreza e na insegurança alimentar, apesar do papel chave na produção de alimentos e na preservação de tradições e espécies milenárias na região.

“Se os governos adotam as políticas públicas adequadas para dotar de recursos os agricultores familiares e os povos tradicionais, vamos dar um passo importante para assegurar que a atual geração de latino-americanos e caribenhos seja a última em conviver com a fome”, explicou Benítez.

Pascal Delisle, conselheiro regional da Cooperação da França, disse que “nesse Ano Internacional da Agricultura Familiar nos parece muito importante analisar, não somente a contribuição para o setor agrícola, mas também a reconhecida capacidade e resiliência à mudança climática”.

Fonte: ONU Brasil.

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